Um manifesto salivar – desintoxicando os corpos da dança de salão

Bem- Vindos,

Vou convidar vocês para dançar comigo atualizações de pensamento-dança do artigo “Pela urgência do fim da boa dama – os papéis de gênero na dança de salão”. Ou talvez isso seja uma carta, um manifesto, ou um acendedor de fogueira-pensamento, ou nada disso.

Já de antemão oriento que aqueles que têm estômago fraco ou sua masculinidade fragilizada que preparem o saco de vômito, pois não me responsabilizo por náuseas que vocês podem vir a sentir. Vocês sabem, se leram o artigo indicado, que eu trabalho a partir da experiência do sentir, principalmente de dar voz ao corpo em movimento. Venho há alguns anos convocado algumas mortes dentro do cenário da dança de salão. Obviamente são imagéticas, apesar de hoje possuir um devir assassino de querer matar o presidente. e isso não seria metaforicamente.

Falo e escrevo sempre a partir da minha experiência de mulher cis-gênero, branca, classe média e bissexual, isso me auxilia a localizar meus privilégios nessas hierarquias de credibilidade. Porém, já gostaria de dizer que cada categoria dessas não me limita, e que estou me transformando intensamente, provavelmente, já estarei outra quando nos encontramos virtualmente.

Hoje vou falar sobre o processo de construção da performance La Bruja, que talvez alguns de vocês tenham presenciado no Encontro Contemporâneo de Dança de Salão em São Paulo em novembro de 2019. Essa ação visceral, a qual convoco o meu corpo, têm se desdobrado e tomado parte do meu processo de vida. La Bruja, ou Bruxa, é um vômito, um sintoma do corpo orgânico que desesperadamente coloca via boca tudo aquilo que o corpo não consegue digerir. Intoxicação subjetiva-moral de ser uma “boa” dama-mulher.

Todo o processo artístico dessa performance perpassa por como transformar o meu corpo em algo que atravesse, para além dessa matéria que se move com tamanha fluidez e tem suas artimanhas técnicas para sustentar o olhar de outros enquanto danço. Algo que fissure sensorialmente. Não queria causar isso ou aquilo, mas queria promover o sentir.

Vou até aquela reunião de pessoas que testemunham a minha dança e anúncio que irei vomitar. Passo então a babar, esse gesto surgiu em um dia de experimentação quando tentava me aproximar de instintos animais que poderiam ser criados dentro do meu corpo. Imaginei um animal prestes a atacar outro. Faminto. A saliva surgiu naturalmente, se conectando com o impulso de matar para saciar a fome. A fome, o desejo, aquele instinto que nos faz viver para não sermos mortos. Então a saliva é esse excremento inapropriado assim como o sangue, fluídos que nos conectam com nossa animalidade. O corpo não domesticado. figuras monstruosas não humanas. Tudo aquilo que escapa do corpo asséptico.

[Ação em diálogo com o deslocamento feito pela autora Barbara Creed em sua análise sobre os filmes de terror, onde a mulher não é a vítima, mas o monstruoso em si capaz de desafiar o patriarcado. Leitura que além de desdobrar na performance La Bruja também subsidia e inspira a performance-instalação Malditas em parceria com as artistas Débora Pazetto e Kamilla Hoffmann.]

Diga-se de passagem, que todas as vezes que performei ou que La Bruja existiu em carne em mim, eu estava menstruada, porque também compreendi que ela não aparece porque precisa, mas porque ali, algo está morrendo.

Sim. Eu morro. Partes minhas ali morrem. Viro uma lagarta-cobra ao babar e desfrutar do impulso de desejo que há em mim. Um devorar-se de si. Me masturbo em homenagem a todas as histéricas que habitaram nossa sociedade patriarcal. Toda a angústia, a culpa, o pudor, a depressão dos corpos femininos vazando em matéria. Há um deleite em virar bicha-mostra e ver a Paola-Humana se desfazendo aos olhos dos outros. Essa monstra agora pode caçar. Arrancar a cabeça de seus opressores. É o desejo assassino que emana.

Percebi que educar as mulheres a serem boas damas é enquadrar seus corpos em uma lógica de que precisam se comportar, e necessitam serem salvas sempre pela figura masculina, oh pai, oh marido, oh parceiro de dança…. Você pode dançar sensual, mas cuidado com que veste nas ruas. Você pode transar, mas cuidado, se dê o respeito, se não vai ganhar fama de galinha. Valorize aqueles homens que te tratam com respeito. Ah como é bom ter um parceiro que me protege. Por aí vai um monte de absurdos que vai sendo injetados em nossos corpos, assim como os agrotóxicos que lançam de maneira autorizada sobre os alimentos que consumimos.

Tudo isso vai calcificando uma dependência subjetiva como se precisamos deles. Esse estado vai te paralisando, o medo congela o corpo. Isso nos torna presa fácil. Quanto mais na minha andava pelas ruas, mais recebia olhares invasivos de homens nas ruas. Quanto mais gentil e calada eu fosse, mais abusada eu era. A dama é esse objeto de desejo que precisa ser gentilmente cuidado. Isso também carrega uma sombra que é o fato dessa mulher ser coisa, e com isso se pode fazer o que se quiser. Afinal há sempre um dono homem por aí, mesmo que nem a conheça, os instintos masculinos falam mais forte. Foda-se se ela está bêbada, se ela é uma criança, se ela nem me conhece, todas elas estão abaixo de mim o ser homem-cavalheiro-soberano.

Paola, por favor, sim é verdade que isso acontece muito. Mas, veja bem somos todos homens que estamos nos desconstruindo diariamente. Estamos aqui em busca de práticas mais plurais de dançar.

Verdade. Estamos todos aqui buscando caminhos, mas te pergunto porque você homem insiste tanto em falar, porque você fura a fila de inscrição na frente das mulheres, porque você pega a palavra sempre, sempre, sempre,… Difícil assumir o lugar de só escutar né. Chato ter que lidar com seu lado escroto. Assumir que você tá, vira e mexe, se agarrando no seu privilégio de ter sempre a palavra. Então, companheiros, para educarmos corpos para uma dança onde a desigualdade entre os gêneros desapareça não basta apenas darmos liberdade e emancipação para as mulheres. Tratasse também de ensinarmos aos homens que vocês vão ter que perder poder. É necessário perder parceiros.

Nesse sentido, provoco meus companheiros de diálogo a repensarem seus textos e falas. Eu pouco li textos testemunhos de homens dizendo o quanto se responsabilizam por ações machistas, só vejo discursos de afirmação dos novos “feministos”. Não vejo vulnerabilidade sendo trazido em relatos, o quanto o sistema de condução oprime os corpos masculinos. Porém vejo muitos textos de autores homens discutindo sobre os conceitos e as abordagens na dança de salão na contemporaneidade, todos querendo assegurar qual é o jeito mais adequado. Todos ainda muito centrados no pensamento racional, não vejo nenhum texto mundano vindo dessas figuras. A lógica de pensar e colocar as ideias ainda permanece sendo pautada por uma escritura do homem racional.

Fartas estamos, não sou só eu. Exercitem mais suas escutas e tentem não trazer o pensamento de cara. Quem sabe seja a hora de vocês se conectarem com emoções ao invés das reflexões, vivam o espaço íntimo. Chamem a sombra para dançar, sejam conduzidos vocês pelo cavalheiro que há em cada um. Depois exercitem criativamente possibilidades de desintoxicação, descongelamento de armaduras, de esvaziamentos para que assim outras coisas possam surgir.

Deixem o espaço público, nesse primeiro momento, para ser ocupado por corpos que sabem muito bem o que é vivenciar o silêncio. Talvez seja isso que estejamos precisando, por hora.

Manas, eai onde estão as monstras? O que vocês precisam babar? Convido-as para separar um momento do seu dia hoje e experimentarem esse exercício. Precisa ter coragem, mas garanto que no final pode ser interessante. Se posicione de um jeito confortável, feche os olhos, assegure que sua roupa não está pressionando a sua barriga. Respire e expire profundamente. Pense em todas as situações de opressão que você vivenciou na dança de salão-vida. A cada memória amarga vá produzindo e acumulando saliva dentro da boca. Quando estiver pronta, relaxe a mandíbula e se permita escorrer. Deixe esse líquido cair, pode ser que ele deslize sobre seu corpo ou cai direto no chão. Não se importe com nada, apenas sinta. Se permita. Babe o quanto achar necessário. Depois se sentir vontade em um ímpeto dance aquilo que vier desse encontro. Viva a experiência selvagem de se conectar com um fluído não domesticado sendo cuspido para fora, algo seu. Um protesto salivar.

Caso você seja trans ou tenha uma experiência desviante da heteronormatividade você pode experimentar ambos os processos ou ainda te sugiro que você possa inventar outros. Se criar algo, compartilha com a gente porque estamos sempre precisando vivenciar oportunidades de desterritorializar a cisheteronormatividade diariamente.

Nossa Paola, mas o que isso tem a ver com dança de salão. Primeiro porque quero e meu desejo é o guia desses textos.  Então eu sempre pesquisei a dança de salão como caminho de investigação artística, então sim, o processo como componho perpassa princípios que desenvolvi a partir da prática de dança a dois. Sejam por princípios práticos como a improvisação durante a ação ou o olhar para os parceires de cena como iguais e influenciadores do meu mover sejam eles objetos ou pessoas. Ou pelo contexto que dispara a construção performática, como é o caso dessa ação que quer vomitar a dama. Foi essa prática que domesticou de maneira eficiente a minha performance de feminilidade.  No fim das contas o que percebi depois desses anos é que essa mulher-dama está-estava incrustada em várias esferas da minha vida. Então há esse exercício de reinvenção de si nesse processo. Lembrando que a performance enquanto campo de ação é diretamente conectada e influenciada por processos educacionais, sociais e artísticos. Então ser e estar também é fazer arte, porque arte e vida é uma coisa só. Eu que escrevo aqui, babo na performance, sou professora de dança de salão, transo, como, adoeço, danço, e é o mesmo corpo em todas as ações.

Por fim, eu acredito ser meu papel de artista e facilitadora de dança de salão convocar delírios e a imaginação para compor outros cenários para essa dança. A minha experiência não permite doses homeopáticas de reinvenção, ainda mais quando estou falando com pessoas comprometidas em formar praticantes nessa área. Para mim, a dança de salão, ou quem sabe a dança des-salão, uma dança de ação contrária que quer sair dos salões colonizados e ocupar outros espaços, quem sabe a rua.

[Delírio faiscante que surgiu depois da provocação da Nadiana ao trazer a questão colonial dessa prática, na conversa do grupo que tem se encontrado semanalmente para pensar as abordagens contemporâneas na dança de salão]

Esse movimento só pode acontecer se for convocado por uma multidão de monstras. Quando convocarmos as bruxas, os piratas, as putas, as possuídas, as histéricas, as bichas,…………… e tudo aquile que for desviante para ocupar a pista de dança. Caso contrário seremos novamente lançados a territórios estigmatizados.

Então, para mim a dança de salão e pode ser implodida e reinventada quantas vezes desejarmos e tivermos coragem de faze-la. Alguém aí disposto a dançar?

 

 

Vida, é sobre isso por hora…

Hoje vou falar sobre vida, ou melhor sobre a minha experiência de estar viva nesse momento. Principalmente sobre a dificuldade de lidar com as minhas emoções. Sobre ser mulher no meio de tudo isso, e sentir uma grande insegurança em poder sentir as coisas que tenho passado. Curiosamente, descobri que tenho passado um certo sufoco interno por nem sempre conseguir expressar o que tem atravessado a minha pele. Parece que as emoções precisam vir sempre justificadas e esclarecidas como se elas precisassem ser acompanhadas de explicações. Sentir e vivenciar a raiva, o ciúmes, o medo, o amor, sem mais. Apenas deixar transbordar.

Uma vez me disseram que se eu chorasse perderia a razão em uma discussão. Hoje vejo que meus olhos (talvez por serem grandes) facilmente se preenchem de lágrimas as quais escorrem pelo meu rosto, e na maioria das vezes fico com vergonha e quero conter elas a todo custo. Parece que as lágrimas seriam o reflexo da minha fraqueza, das minhas inseguranças, das minhas faltas de sentido, e dos meus erros.

Elas são a prova do quanto o meu corpo sente, e muito, tudo que está ao redor. Não é algo ruim poder deixar que elas apareçam e que o chorar não descredibiliza todo o resto que sou. Não destitui a minha competência. Isso pode parecer talvez meio óbvio, mas na prática tenho percebido que tenho muitas restrições para colocar para fora as emoções. Talvez seja por isso que há anos sofro com alergias na pele. Seriam elas frutos de emoções sufocadas dentro desse corpo  inquieto?

Inquietações contidas dos bichos vorazes que me habitam e talvez possam ser demais para o outro, principalmente esse outro chamado bicho homem.

Curioso é pensar nessa tal histeria ou na imaturidade emocional, nas palavras de hoje. Qualidades lançadas aos corpos de mulheres que gritam, choram e agridem, em meio ao caos, e a temperatura exacerbada da panela de pressão em que vivemos para lidar com tantos bebês-adultos.

Queria hoje poder gritar, mas estou sem voz. Então me resta desabafar em palavras aqui nesse espaço. Cansada de conter o que não pode ser contido. Indisposta me sinto, ao me deparar de novo e de novo com ele que não consegue olhar além de si, preso a medos e discursos de liberdades vazios.

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Foto de Luiz Felipe Fereira

Sobre Drama no Salão, Senhora-Trepadeira e Paola-Inquieta

A Nina, Karenina de Los Santos, me fez um convite em 2015. Ela queria pesquisar dramaturgia nos processos de criação a partir da dança de salão. A pesquisa dela já ocorria nesse sentido na dança contemporânea, e quando ela começou a trabalhar com dança de salão percebeu que pouco ou quase nada era feito nessa área. Isso tudo decorre, a meu ver, muito devido ao fenômeno da dança de salão se dar no âmbito social, ou seja, a experiência da mesma ocorre através dos bailes e festas para se dançar a dois. Embora, nos tempos atuais muitos professores vejam nessa prática uma fonte para desenvolver suas pesquisas cênicas, em muitos casos isso é feito através do desenvolvimento de coreografias que visam apresentar um aperfeiçoamento técnico e servem como demonstrações de movimentos virtuosos. Claro que já é possível citar grupos e dancarinxs que estejam desenvolvendo pesquisas cênicas mais aprofundadas como é o caso do Casa 4 (BA); Grão (SC); Terceira Margem (MG); ou ainda o trabalho de investigação de movimento a partir da linguagem do tango e a improvisação que desenvolvi com o Giovanni Vergo nos últimos anos que resultou em diversas performances e compôs também o espetáculo Corpobolados (2015-2018). Há outras pessoas, com certeza não citei alguém nesse texto, pois já estamos vivendo novos rumos dessa prática. (Vou falar em outro post daqui uns dias sobre a experiência do 2º Encontro de Dança de Salão Contemporânea).

Drama no Salão com Karenina de Los Santos

Foto Stephany Lotus – Eu e a Nina em 2016 mostrando um fragmento da pesquisa na Mostra de Porcessos do Necitra.

Mas vamos voltar aqui para uma questão que me atravessa que é: como pensar na dança de salão como procedimento de criação?

Há meu ver, quando pensamos em um processo de criação não podemos nos limitar em transformar os movimentos que são feitos na prática social e recoloca-los no palco. Nesse processo de copiar e colar do salão de baile para o palco muito se perde, e o que vemos realmente parece não fazer sentido. São processos singulares e que através desse tipo de procedimento perdem características que os tornam especiais, o baile por si só pode ser uma experiência estética incrível, é um espaço coletivo onde coisas ocorrem devido o encontro espontâneo entre pessoas. O ato de criar para a cena é um outro caminho, é preciso pensar no que estaremos enfatizando, pensar em como isso pode vir a atingir aquela pessoa que se disponibiliza estar lá para assistir, ser responsável pelos significados que vão emergir.  Com certeza, poderia falar mais sobre isso, mas quero enfatizar como foi o processo de elaboração do Drama no Salão a partir da minha perspectiva de dançarina colaboradora-criadora desse projeto.

Nesse sentido, penso em quais os princípios que a dança de salão foi me auxiliando a construir nesse corpo dançante ao longo dos anos.  Hoje reconheço uma habilidade de improvisação, uma escuta ao corpo do outro, uma possibilidade de comunicação ao dançar com a outra pessoa que muito foram desenvolvidas através dessa prática. E elas me auxiliam e me fazem dançante através de uma via singular, um corpo que se forma para dançar com o outro. Minha principal formação em dança em tempo e estudo me coloca para estar em relação com o corpo do outro. Isso me constitui enquanto pessoa, e me auxilia em muitas situações da vida, mas também me traz desafios, por exemplo, em alguns momentos de improvisação me perco fácil dos meus impulsos porque quero muito estar com o outro. Facilmente o outro parece mais interessante do que o que eu havia começado a fazer, enfim, questões de dança que PÃÃÃÃ são questões de vida também.

Mas voltamos a Nina, ao Drama no Salão e a esse processo de criação, se é que vocês que me leem ainda estão acompanhando meu devaneio. As minhas pesquisas com a Nina começaram por aí, não queríamos chegar em lugar nenhum num primeiro momento. Queríamos experimentar como nos abraçar de diferentes formas, queríamos jogar com as vestimentas que percorriam nossos imaginários de dança de salão, caminhar juntas pela sala, como era alterar as velocidades dos movimentos que conhecíamos, como era dançar sozinha o que fazíamos juntas…

Experimentamos, dançamos, experimentamos mais um pouco.

Assim aos poucos começamos a perceber a dramaturgia ir chegando, apontando para o que o universo dos bailes de dança de salão nos provocavam, o ato de estar em um baile, o que acontecia nesse lugar. E buuuuuuum, algo começou a ficar muito latente, éramos duas mulheres dançando algo que não está de acordo com as normas desse espaço. Éramos duas mulheres, mulheres que dançam que são independentes que conduzem e são conduzidas, que batem boca quando sofrem situações de opressão nesse espaço. Mas ainda assim éramos duas mulheres que apesar de críticas a esse espaço-tempo dança de salão também já sofreram diversas situações desconfortáveis, que já tiverem seus trabalhos deslegitimados, que já tiveram seus corpos julgados e controlados para serem belos, delicados e sutis, que já foram assediadas e que já não foram tiradas para dançar.

Assim fomos desenvolvendo essa pesquisa pensando nos dramas que atravessavam nossos corpos de mulheres na dança de salão. Chegamos a ir em bailes, queríamos ver como acontecia ainda esses bailes para além dos espaços das escolas de dança que frequentávamos, queríamos ver como eram essas mulheres. Eu lembro que chegamos empolgadas no Baile de domingo à tarde que começava às 15h da tarde, fomos arrumadinhas e passamos até batom nesse dia.

Lá estava aquele salão imenso com gente dançando, na maioria pessoas de idade, definitivamente éramos as mais jovens, havia diversas regras sobre como se portar e dançar naquele lugar. Luzes coloridas piscavam, um tecladista tocando e cantando só clássicos, pessoas rodando e dançando a dois com seus corpos de diferentes formas (nada muito padronizado como nos bailes de escola), e nos ali observando e atentas em ver como as danças ocorriam. Contudo fomos percebendo que o que mais nos chamavam atenção eram algumas mulheres, senhoras, bem arrumadas, que esperavam em suas cadeiras uma oportunidade de dançar. Elas eram um misto de escultura com trepadeira, na minha percepção, estavam apoiadas na cadeira e na parede na espera de algum convite para adentrar no salão que rodava, porém, o convite nunca vinha.

Fomos ficando deprimidas naquele lugar, assim como aquelas que esperavam.

Eu jamais vou me esquecer da senhora trepadeira que parecia fazer parte daquele baile, como se ela sempre estivesse esperando naquele lugar. Eu pensava será que ela já dançou muito anos atrás? Será que ela vem todos os domingos esperar? Será que ela se arruma todos os domingos para vir esperar uma possível dança?

Os olhos dela eram perdidos na imensidão já estavam cansados de buscar….

Eu jamais vou esquecer esse olhar vazio, um vazio de imensidão do ato de esperar.

Amanhã quando entrar para dançar o Drama no Salão, danço por ela, pela sua espera, danço por mim por saber usar da escuta e do ato do esperar como procedimento para criar, e não para paralisar. Sei da minha responsabilidade de artista de estar ali dançando, nesse momento, nesse tempo-político sombrio, por isso me faz muito sentido dançar pela senhora-trepadeira. Assim como ela há muitas de nós sendo silenciadas na dança e na vida, na constante espera de que um convite seja feito.

Eu aceitei o convite da dança de dançar para viver. Mesmo sabendo que sempre, constantemente, querem que eu volte a esperar algo ou alguém. Por isso optei em dançar, sim vou dançar o ato de esperar.

 

Drama no Salão

Dia 22.11.18 às 20h na Sala Álvaro Moreyra, Av. Erico Veríssimo, n º 307

Dia 23.11.18 às 20h no Teatro Hebraica, Rua João Telles nº 508

Quanto: 30,00 (inteira); 15 (classe artística, estudantes e melhor idade)

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Ficha Técnica

Concepção e direção: Karenina de Los Santos
Criação e interpretação: Karenina de Los Santos e Paola Vasconcelos
Iluminação cênica: Gabriel Martins
Luz cenográfica: Karenina de los Santos
Figurino: Antonio Rabadan
Trilha sonora: Paola Vasconcelos e Karenina de los Santos
Design gráfico: Fernanda Boff
Produção: Karenina de los Santos e Fabrício Sortica
Fotos: Joseane Bertonccello

Corpobolados

Esse espetáculo estreou no ano de 2015 na cidade de Porto Alegre.
Realizando duas temporadas com lotação máxima de público. Em 2016,
fez parte da programação local do 11ª Palco Giratório do SESC de Porto
Alegre. A ideia do trabalho surgiu inicialmente no projeto de vídeodança
com o mesmo nome do espetá- culo, em janeiro de 2013, e nessa versão
para o teatro expandi-se ganhando novas formas, movimentos e
relações. O espetáculo Corpobolados recebeu sete indicações ao Prêmio
Açorianos de Dança de Porto Alegre EM 2015 (Espetáculo do Ano,
Bailarina, Direção, Trilha Sonora, Iluminação, Coreograa e Destaque
Dança de Salão) tendo recebido os prêmios de Bailarina e Coreografia.

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Concepção

Reconhecer e se entregar para descobrir outro universo, Corpobolados é um desejo de encontro; é a possibilidade de se entregar para
aprender com o outro. O tango e o malabarismo surgem como pontos de partida desta investigação, na qual o diálogo é quem determina
o que acontecerá. É um espaço de relações entre corpos e objetos: os primeiros são dançantes e performáticos – embolados em clave e bolas
de malabarismo -os segundos, energias pulsantes que geram possibilidades de movimentos. Dessa potência de corpos bolados e embolados,
em um espaço percorrido de tensões, surge a possibilidade de criação de um tempo à parte – uma pausa para percebermos as relações
entre os corpos, sejam eles humanos ou não. Conversas, pausas e silêncio: todos os encontros e desencontros que uma relação pode ter.

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Ficha Técnica

Direção: Paola Vasconcelos
Intérpretes-criadores: Gabriel Martins, Giovanni Vergo e Paola Vasconcelos.
Iluminação: Mirco Zanini

Pesquisa Sonora: Paola Vasconcelos
Figurino: Antonio Rabadan
Produção:  Kyrie Isnardi

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Teaser do espetáculo: https://www.youtube.com/watch?v=RaHOi9TL68U

Contato: lolarte.14@gmail.com/ 051 981395519

Processos Artísticos

Intervenção “Um Tango em Clave”

Intervenção realizada no Saguão da Reitoria da UFRGS. Foto de Yamini Benites.

Intervenção realizada no Saguão da Reitoria da UFRGS. Foto de Yamini Benites.

Concepção:

Encontro entre matérias vibrantes. Duas potencialidades disparando diálogos. Corpo e objeto se relacionando e potencializando movimentos, a relação desse contato sendo pautada pela improvisação e pela referência sonora do tango. O tango surge como um rastro nesse processo, pois emerge da experiência principal do corpo da artista-pesquisadora e seu ponto de partida para pensar o diálogo entre os corpos. A Clave objeto escolhido, é deslocada da função circense tradicionalmente concebida, para existir como matéria vibrante que a partir do contato do corpo da artista irá estabelecer fluxos e movimentos decorrentes do ato de coexistir dançando.  Proposta efervescente construída a cada instante, a cada pausa, encontro, desencontro e especialmente a cada lugar que acolhe essa relação.

Ficha Técnica:

Concepção, figurino e em cena: Paola Vasconcelos

Artista Colaborador e Técnica: Gabriel Martins

Orientação: Mônica Fagundes Dantas

Produção: Paola Vasconcelos

Apoio cultural: Necitra

Duração da Intervenção: 60 minutos

Playlist de vídeos do trabalho:

https://www.youtube.com/playlist?list=PLUUBe3ktS832nHmsSes0pRdYqaz5Ab1Ts