Um manifesto salivar – desintoxicando os corpos da dança de salão

Bem- Vindos,

Vou convidar vocês para dançar comigo atualizações de pensamento-dança do artigo “Pela urgência do fim da boa dama – os papéis de gênero na dança de salão”. Ou talvez isso seja uma carta, um manifesto, ou um acendedor de fogueira-pensamento, ou nada disso.

Já de antemão oriento que aqueles que têm estômago fraco ou sua masculinidade fragilizada que preparem o saco de vômito, pois não me responsabilizo por náuseas que vocês podem vir a sentir. Vocês sabem, se leram o artigo indicado, que eu trabalho a partir da experiência do sentir, principalmente de dar voz ao corpo em movimento. Venho há alguns anos convocado algumas mortes dentro do cenário da dança de salão. Obviamente são imagéticas, apesar de hoje possuir um devir assassino de querer matar o presidente. e isso não seria metaforicamente.

Falo e escrevo sempre a partir da minha experiência de mulher cis-gênero, branca, classe média e bissexual, isso me auxilia a localizar meus privilégios nessas hierarquias de credibilidade. Porém, já gostaria de dizer que cada categoria dessas não me limita, e que estou me transformando intensamente, provavelmente, já estarei outra quando nos encontramos virtualmente.

Hoje vou falar sobre o processo de construção da performance La Bruja, que talvez alguns de vocês tenham presenciado no Encontro Contemporâneo de Dança de Salão em São Paulo em novembro de 2019. Essa ação visceral, a qual convoco o meu corpo, têm se desdobrado e tomado parte do meu processo de vida. La Bruja, ou Bruxa, é um vômito, um sintoma do corpo orgânico que desesperadamente coloca via boca tudo aquilo que o corpo não consegue digerir. Intoxicação subjetiva-moral de ser uma “boa” dama-mulher.

Todo o processo artístico dessa performance perpassa por como transformar o meu corpo em algo que atravesse, para além dessa matéria que se move com tamanha fluidez e tem suas artimanhas técnicas para sustentar o olhar de outros enquanto danço. Algo que fissure sensorialmente. Não queria causar isso ou aquilo, mas queria promover o sentir.

Vou até aquela reunião de pessoas que testemunham a minha dança e anúncio que irei vomitar. Passo então a babar, esse gesto surgiu em um dia de experimentação quando tentava me aproximar de instintos animais que poderiam ser criados dentro do meu corpo. Imaginei um animal prestes a atacar outro. Faminto. A saliva surgiu naturalmente, se conectando com o impulso de matar para saciar a fome. A fome, o desejo, aquele instinto que nos faz viver para não sermos mortos. Então a saliva é esse excremento inapropriado assim como o sangue, fluídos que nos conectam com nossa animalidade. O corpo não domesticado. figuras monstruosas não humanas. Tudo aquilo que escapa do corpo asséptico.

[Ação em diálogo com o deslocamento feito pela autora Barbara Creed em sua análise sobre os filmes de terror, onde a mulher não é a vítima, mas o monstruoso em si capaz de desafiar o patriarcado. Leitura que além de desdobrar na performance La Bruja também subsidia e inspira a performance-instalação Malditas em parceria com as artistas Débora Pazetto e Kamilla Hoffmann.]

Diga-se de passagem, que todas as vezes que performei ou que La Bruja existiu em carne em mim, eu estava menstruada, porque também compreendi que ela não aparece porque precisa, mas porque ali, algo está morrendo.

Sim. Eu morro. Partes minhas ali morrem. Viro uma lagarta-cobra ao babar e desfrutar do impulso de desejo que há em mim. Um devorar-se de si. Me masturbo em homenagem a todas as histéricas que habitaram nossa sociedade patriarcal. Toda a angústia, a culpa, o pudor, a depressão dos corpos femininos vazando em matéria. Há um deleite em virar bicha-mostra e ver a Paola-Humana se desfazendo aos olhos dos outros. Essa monstra agora pode caçar. Arrancar a cabeça de seus opressores. É o desejo assassino que emana.

Percebi que educar as mulheres a serem boas damas é enquadrar seus corpos em uma lógica de que precisam se comportar, e necessitam serem salvas sempre pela figura masculina, oh pai, oh marido, oh parceiro de dança…. Você pode dançar sensual, mas cuidado com que veste nas ruas. Você pode transar, mas cuidado, se dê o respeito, se não vai ganhar fama de galinha. Valorize aqueles homens que te tratam com respeito. Ah como é bom ter um parceiro que me protege. Por aí vai um monte de absurdos que vai sendo injetados em nossos corpos, assim como os agrotóxicos que lançam de maneira autorizada sobre os alimentos que consumimos.

Tudo isso vai calcificando uma dependência subjetiva como se precisamos deles. Esse estado vai te paralisando, o medo congela o corpo. Isso nos torna presa fácil. Quanto mais na minha andava pelas ruas, mais recebia olhares invasivos de homens nas ruas. Quanto mais gentil e calada eu fosse, mais abusada eu era. A dama é esse objeto de desejo que precisa ser gentilmente cuidado. Isso também carrega uma sombra que é o fato dessa mulher ser coisa, e com isso se pode fazer o que se quiser. Afinal há sempre um dono homem por aí, mesmo que nem a conheça, os instintos masculinos falam mais forte. Foda-se se ela está bêbada, se ela é uma criança, se ela nem me conhece, todas elas estão abaixo de mim o ser homem-cavalheiro-soberano.

Paola, por favor, sim é verdade que isso acontece muito. Mas, veja bem somos todos homens que estamos nos desconstruindo diariamente. Estamos aqui em busca de práticas mais plurais de dançar.

Verdade. Estamos todos aqui buscando caminhos, mas te pergunto porque você homem insiste tanto em falar, porque você fura a fila de inscrição na frente das mulheres, porque você pega a palavra sempre, sempre, sempre,… Difícil assumir o lugar de só escutar né. Chato ter que lidar com seu lado escroto. Assumir que você tá, vira e mexe, se agarrando no seu privilégio de ter sempre a palavra. Então, companheiros, para educarmos corpos para uma dança onde a desigualdade entre os gêneros desapareça não basta apenas darmos liberdade e emancipação para as mulheres. Tratasse também de ensinarmos aos homens que vocês vão ter que perder poder. É necessário perder parceiros.

Nesse sentido, provoco meus companheiros de diálogo a repensarem seus textos e falas. Eu pouco li textos testemunhos de homens dizendo o quanto se responsabilizam por ações machistas, só vejo discursos de afirmação dos novos “feministos”. Não vejo vulnerabilidade sendo trazido em relatos, o quanto o sistema de condução oprime os corpos masculinos. Porém vejo muitos textos de autores homens discutindo sobre os conceitos e as abordagens na dança de salão na contemporaneidade, todos querendo assegurar qual é o jeito mais adequado. Todos ainda muito centrados no pensamento racional, não vejo nenhum texto mundano vindo dessas figuras. A lógica de pensar e colocar as ideias ainda permanece sendo pautada por uma escritura do homem racional.

Fartas estamos, não sou só eu. Exercitem mais suas escutas e tentem não trazer o pensamento de cara. Quem sabe seja a hora de vocês se conectarem com emoções ao invés das reflexões, vivam o espaço íntimo. Chamem a sombra para dançar, sejam conduzidos vocês pelo cavalheiro que há em cada um. Depois exercitem criativamente possibilidades de desintoxicação, descongelamento de armaduras, de esvaziamentos para que assim outras coisas possam surgir.

Deixem o espaço público, nesse primeiro momento, para ser ocupado por corpos que sabem muito bem o que é vivenciar o silêncio. Talvez seja isso que estejamos precisando, por hora.

Manas, eai onde estão as monstras? O que vocês precisam babar? Convido-as para separar um momento do seu dia hoje e experimentarem esse exercício. Precisa ter coragem, mas garanto que no final pode ser interessante. Se posicione de um jeito confortável, feche os olhos, assegure que sua roupa não está pressionando a sua barriga. Respire e expire profundamente. Pense em todas as situações de opressão que você vivenciou na dança de salão-vida. A cada memória amarga vá produzindo e acumulando saliva dentro da boca. Quando estiver pronta, relaxe a mandíbula e se permita escorrer. Deixe esse líquido cair, pode ser que ele deslize sobre seu corpo ou cai direto no chão. Não se importe com nada, apenas sinta. Se permita. Babe o quanto achar necessário. Depois se sentir vontade em um ímpeto dance aquilo que vier desse encontro. Viva a experiência selvagem de se conectar com um fluído não domesticado sendo cuspido para fora, algo seu. Um protesto salivar.

Caso você seja trans ou tenha uma experiência desviante da heteronormatividade você pode experimentar ambos os processos ou ainda te sugiro que você possa inventar outros. Se criar algo, compartilha com a gente porque estamos sempre precisando vivenciar oportunidades de desterritorializar a cisheteronormatividade diariamente.

Nossa Paola, mas o que isso tem a ver com dança de salão. Primeiro porque quero e meu desejo é o guia desses textos.  Então eu sempre pesquisei a dança de salão como caminho de investigação artística, então sim, o processo como componho perpassa princípios que desenvolvi a partir da prática de dança a dois. Sejam por princípios práticos como a improvisação durante a ação ou o olhar para os parceires de cena como iguais e influenciadores do meu mover sejam eles objetos ou pessoas. Ou pelo contexto que dispara a construção performática, como é o caso dessa ação que quer vomitar a dama. Foi essa prática que domesticou de maneira eficiente a minha performance de feminilidade.  No fim das contas o que percebi depois desses anos é que essa mulher-dama está-estava incrustada em várias esferas da minha vida. Então há esse exercício de reinvenção de si nesse processo. Lembrando que a performance enquanto campo de ação é diretamente conectada e influenciada por processos educacionais, sociais e artísticos. Então ser e estar também é fazer arte, porque arte e vida é uma coisa só. Eu que escrevo aqui, babo na performance, sou professora de dança de salão, transo, como, adoeço, danço, e é o mesmo corpo em todas as ações.

Por fim, eu acredito ser meu papel de artista e facilitadora de dança de salão convocar delírios e a imaginação para compor outros cenários para essa dança. A minha experiência não permite doses homeopáticas de reinvenção, ainda mais quando estou falando com pessoas comprometidas em formar praticantes nessa área. Para mim, a dança de salão, ou quem sabe a dança des-salão, uma dança de ação contrária que quer sair dos salões colonizados e ocupar outros espaços, quem sabe a rua.

[Delírio faiscante que surgiu depois da provocação da Nadiana ao trazer a questão colonial dessa prática, na conversa do grupo que tem se encontrado semanalmente para pensar as abordagens contemporâneas na dança de salão]

Esse movimento só pode acontecer se for convocado por uma multidão de monstras. Quando convocarmos as bruxas, os piratas, as putas, as possuídas, as histéricas, as bichas,…………… e tudo aquile que for desviante para ocupar a pista de dança. Caso contrário seremos novamente lançados a territórios estigmatizados.

Então, para mim a dança de salão e pode ser implodida e reinventada quantas vezes desejarmos e tivermos coragem de faze-la. Alguém aí disposto a dançar?

 

 

Dançar a dois em tempos de pandemia? A experiência do vazio

29 de abril de 2020,

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Foto de Luiz Felipe Ferreira

Uma data especial a todos aqueles que se sentem atravessados pela arte do dançar. Hoje é o dia internacional da dança, e eu já escrevi algumas vezes sobre essa data. Sempre reiterei a importância de valorizarmos essa prática, e muito já discuti sobre as questões políticas que atravessam essa área. Contudo, em tempos de pandemia, nunca havia passado pela minha experiência corpórea, nesses quase vinte e nove anos, a impossibilidade de contato com o outro.

A crise em que vivemos traz como medida de proteção e salvamento o não tocar, a ação de isolar nossos corpos de estarem se contagiando. Não quero que pareça que não estou de acordo com isso, jamais, acho que é o devemos fazer no momento. Só que o que quero falar é o tamanho do vazio, o qual eu nem sei transpor em palavras que estou vivenciando nesse momento. Eu, uma pesquisadora e artista especialista na arte de se relacionar dançando, sendo lançado ao mar de incertezas promovido pela experiência de não poder se relacionar. Sim, acima de tudo minhas pesquisas na dança sempre perpassam pelo tema da relação. Isso tem muita conexão com o modo como me reinvento e aprendo sobre mim diariamente, sempre através do olhar do outro. O outro sempre foi essa potência de cores que ao entrar em contato com as minhas forças e desejos durante o dançar nos permitia acessar territórios desconhecidos.

Isso acontece exclusivamente pelo ato de contágio, se não formos afetados, se não nos permitirmos ser infectados-atravessados pelo outro a dança a dois não acontece. Falava em meu tcc, de que o dançar a dois era a possibilidade de experimentar um ser a dois. Algo que extrapola a experiência individual dos corpos que dançam junto, e se estabelece a partir do encontro. Acontecimento que atravessa ambos e não pertence a ninguém, e que se dissipa quando os corpos encerram a dança. Talvez no contexto que vivemos o covid-19 seja esse ser a dois, a doença, um encontro entre corpo orgânico e o vírus. A doença que surge na relação. Por isso, mais do que nunca, pensar sobre como estabelecemos nossas relações com o outro se faz gritar para mim nesse contexto. O adoecer ao entrarmos em contato, quantas pessoas aqui já vivenciaram processos abusivos de se relacionar. O quanto que já falamos na dança de salão que o sistema de condução pode ser autoritário, abusivo entre os papéis e pode causar danos profundos nas experiências subjetivas das pessoas. Corpos cheio de cicatrizes e dores. Inclusive é o que mais já cruzei por aí,  pode incluir nessa conta o meu tá.

Nesse sentido, sem querer fazer panoramas a longo prazo, eu hoje deliro em como reinventar o dançar a dois em tempos de pandemia. Primeiro ponto se permitir sentir, e nada mais, lançar-se ao desconhecido do vazio no corpo. É isso. Não é fácil. Eu sou uma que resisto intensamente a experiência de sentir, já estou sempre querendo criar, reinventar, criticar, analisar, blá blá blá… Então para dançar a dois em meio a pandemia é necessário viver o vazio da incerteza, o vazio onde só a sua pele está. Na permanência desse estado, caso você consiga, talvez surjam as faíscas que nos compõem, vemos aquilo que nos colore das diversas formas, aquilo que queremos colocar embaixo do tapete. As sombras dançando em nossa frente como nunca antes, a finitude nos chamando para dançar abraçada com ela. É isso. Dançaremos na difícil, mas talvez profunda descoberta de outro dançar, o dançardesi.

O segundo desafio para dançar a dois, se permitir ser. Expandir aquilo que se é, deixar as expectativas e os julgamentos de lado, estamos isolados nas nossas casas mesmo. É hora de se conectar com aquilo que te move na urgência, aquilo que você deve fazer não entra aqui. Só aquilo que teu corpo te grita e diz: eu preciso que você me alongue aqui, me torça, me faça respirar profundamente, me faça sentir o chão e a base que é entregar o peso para a terra. Eu preciso de ar, água, força, base,…Eu não tenho dúvida que seu corpo deve estar te dizendo algo agora, talvez esteja até gritando com você. Escute. O que você está sentindo fisicamente nesse momento? Como está seu corpo? Sem racionalizar, responda precisamente.

Por fim, terceiro passo talvez esse é o mais sonhador de todos, mas isso é importante porque sem imaginação não sobrevivemos. Desperte a criança que está em você, chama ela para brincar. Coloque uma música que te mobiliza, ou se lance ao silêncio. Faça o exercício de olhar para o seu quarto, sala, onde quer que você esteja através dos olhos dela. Descubra aquilo que você nunca viu. Veja com o olhar de quem brinca de descobrir coisas e não sabe o que se é, ou melhor pouco se importa com que se é. Crie você o dançar e explore as possibilidades inimagináveis, navegue em mares desconhecidos, converse com seus fantasmas, seja outr@s,… Lembra de quando você era criança, aposto que não precisava muito para te chamar para brincar.

Talvez depois de tudo isso, quando em um futuro, possamos celebrar o contágio novamente. Esse dançar a dois em tempos de pandemia tenha nos ensinado a respeitar a nós. Estaremos celebrando e felizes por poder estar em contato, pois sabemos como é difícil estar sempre só. Todavia, talvez tenhamos descoberto que para nos colocarmos para dançar é preciso ser você em potência e que o outro por mais que te mobilize e te convoque aprendizados, ele jamais te arrasta. Ele jamais pode te diminuir. Ele jamais é mais interessante que você e sua vida. O outro existe para nos fazer crescer e descobrir coisas, mas nunca para te dizimar.

Estou com saudades imensas de compartilhar abraços dançandos, ministrar vivências contagiosas, rir dos caminhos incertos que descubro dançando com vocês. Meus desejos e afagos virtuais a todos que me acompanham. Feliz dia internacional da dança de si amores, e que possamos passar por isso. Tô com um aperto no coração, mas também me permitindo sentir….

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Vida, é sobre isso por hora…

Hoje vou falar sobre vida, ou melhor sobre a minha experiência de estar viva nesse momento. Principalmente sobre a dificuldade de lidar com as minhas emoções. Sobre ser mulher no meio de tudo isso, e sentir uma grande insegurança em poder sentir as coisas que tenho passado. Curiosamente, descobri que tenho passado um certo sufoco interno por nem sempre conseguir expressar o que tem atravessado a minha pele. Parece que as emoções precisam vir sempre justificadas e esclarecidas como se elas precisassem ser acompanhadas de explicações. Sentir e vivenciar a raiva, o ciúmes, o medo, o amor, sem mais. Apenas deixar transbordar.

Uma vez me disseram que se eu chorasse perderia a razão em uma discussão. Hoje vejo que meus olhos (talvez por serem grandes) facilmente se preenchem de lágrimas as quais escorrem pelo meu rosto, e na maioria das vezes fico com vergonha e quero conter elas a todo custo. Parece que as lágrimas seriam o reflexo da minha fraqueza, das minhas inseguranças, das minhas faltas de sentido, e dos meus erros.

Elas são a prova do quanto o meu corpo sente, e muito, tudo que está ao redor. Não é algo ruim poder deixar que elas apareçam e que o chorar não descredibiliza todo o resto que sou. Não destitui a minha competência. Isso pode parecer talvez meio óbvio, mas na prática tenho percebido que tenho muitas restrições para colocar para fora as emoções. Talvez seja por isso que há anos sofro com alergias na pele. Seriam elas frutos de emoções sufocadas dentro desse corpo  inquieto?

Inquietações contidas dos bichos vorazes que me habitam e talvez possam ser demais para o outro, principalmente esse outro chamado bicho homem.

Curioso é pensar nessa tal histeria ou na imaturidade emocional, nas palavras de hoje. Qualidades lançadas aos corpos de mulheres que gritam, choram e agridem, em meio ao caos, e a temperatura exacerbada da panela de pressão em que vivemos para lidar com tantos bebês-adultos.

Queria hoje poder gritar, mas estou sem voz. Então me resta desabafar em palavras aqui nesse espaço. Cansada de conter o que não pode ser contido. Indisposta me sinto, ao me deparar de novo e de novo com ele que não consegue olhar além de si, preso a medos e discursos de liberdades vazios.

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Foto de Luiz Felipe Fereira

Pensamento-dança os quais ecoam hoje sobre Condução Compartilhada

Oficina Dança de Salão Queer

Vivência de Dança de Salão Queer na Semana da Diversidade Sexual e de na FABICO. Foto: Yamini Benites.

Ontem estava participando de um evento sobre condução compartilhada no forró. Confesso que fico extremamente feliz e grata por estar podendo vivenciar essas ações no espaço da dança de salão. São anos pesquisando, investigando e propondo ações para reinventar essa prática, e perceber que há um movimento acontecendo, é algo que me deixa muito feliz. Essas ações não estão ocorrendo apenas nos espaços (in)visíveis, pensando na atuação das mulheres que normalmente acabam sendo invisibilizadas pela dança de salão majoritariamente masculina. A condução compartilhada pode ser tema de um evento de forró, as discussões sobre gênero são um dado material que atravessa os corpos que dançam.  Já que é necessário que se dialogue com as temáticas do nosso tempo, a dança de salão precisa acompanhar os fluxos da contemporaneidade.

Eu sempre me lembro o quanto me sentia sozinha quando comecei a trazer essas pautas para os espaços que frequentava, hoje me sinto acolhida por muitas outras colegas, e juntas somos mais fortes. Assim me sinto responsável e implicada a germinar faíscas de coragem para que outras mulheres possam desdobrar suas práticas a partir de um olhar crítico. Então é lindo ver como ontem os olhares de muitas mulheres brilhavam com as novas possibilidades de inserção e de poder vivenciar essa prática sem ter que se ajustar a uma ideal de dama inalcançável. Assim como vejo os ombros de muitos homens relaxando ao descobrirem que ainda que timidamente é possível acessar um corpo sensível, delicado e sutil. A dança enquanto função social, redescobrindo outras formas de estar em relação, buscando momentos de equidade e pluralidade. Muito bonito mesmo ver esses encontros.

Porém, algo como profissional me desperta uma luzinha de alerta. (Já aviso que não quero parecer possessiva em relação a essa temática porque acredito mesmo que essas práticas precisam ser disseminadas e possuir abordagens plurais)

Ontem ouvindo as aulas dos outros professora/es pensei que talvez ainda haja uma certa confusão no que se refere essa noção de condução compartilhada, e principalmente porque ela surge. A abordagem de condução compartilhada na dança de salão, é uma proposta prática que parte de implicações políticas muito precisas. Quando ouvi esse termo pela primeira vez foi a partir das provocações da professora Carolina Polezi de Campinas. Na época em 2016, percebi que a proposta da Carol dialogava com as implicações que eu também estava desenvolvendo ao pensar uma Dança de Salão Queer, as quais tinha duas provocações muito precisas: os papéis de gênero na dança de salão e a heterossexualidade como norma.

Essas duas pautas são decisivas para compreendermos porque se instaura essa proposta prática na dança de salão, porque ela é uma tentativa de subverter esses dois pontos. Então, sim a condução compartilhada é uma proposição para além do forró, porém ela não é apenas uma linguagem a mais na dança de salão. Ela não é uma forma dentro de todas as outras formas de dança, ela quer corroer esses padrões que estão colados nessas figuras na dança chamados de cavalheiros-damas. A condução compartilhada não desenvolve seus princípios a partir desses papéis, ela pressupõe a construção de corpos para a dança de salão que não estejam limitados a funções estereotipadas de categorias generalistas, e limitadas, do que é ser homem e mulher na nossa sociedade.

Além disso, ela estimula novas experiências, possibilitando através dessa vivência a exploração de outras formas de se dançar, ao incentivar que mulheres conduzam, homens sejam conduzidos, a buscar movimentos que todos possam ser criativos, a desconstruir essa lógica sensual padronizada na dança, a buscar um cuidado com os corpos. E isso não é algo que se dá espontaneamente, não é algo que ocorra sem que seja estimulado pelos profissionais que estão a frente desse processo.

Condução Compartilhada, então não é uma forma de dança apenas é muito mais do que isso é uma proposta de vida. Esse é um ponto caro para mim e para todas as outras mulheres e corpos que não se identificam com a norma heterossexual. Isso é muito importante para nós, porque infelizmente é nos nossos corpos que o sistema tradicional de condução e de dança de salão com seus papéis deixa as suas marcas, as quais são muitas vezes bastante doloridas. Sim galera, é a partir das experiências de violência que sofremos que essas propostas surgiram. É a partir do silêncio que fomos obrigados a fazer: seja na dança ao ter que apenas seguir; na sala de aula ao não ter espaço de fala porque nossos parceiros homens não permitiam; nos eventos que não divulgavam os nossos nomes; nos bailes em que não fomos tiradas para dançar. Na insegurança que nos foi gerada e no descrédito da nossa competência profissional simplesmente por sermos mulheres. Sem contar nos pontos subjetivos ao sermos massacradas para sermos bonitas, sensuais, gentis, educadas o tempo inteiro. Assim gerando tamanha disfunção que estamos sempre competindo umas com as outras, querendo nos ajustarmos a esses padrões.

Então condução compartilhada é prática de vida, uma vida que pulsa com força e quer romper desesperadamente essas condutas tóxicas e que nos tornam enrijecidos, enfraquecidos e submissos a tudo isso. Infelizmente meninos vocês estão em um outro lugar nesse processo, o que não quer dizer que essa loucura toda não seja enfraquecedora e dolorida aos corpos de vocês. Não há dúvida que isso os atinge também. Porém há uma posição diferente no jogo e necessário reconhecer esse lugar antes de qualquer outro passo.

Assim, minha dica para qualquer professora/es que estejam pensando essas práticas na contemporaneidade. Primeiro é precisam começar a romper inicialmente com os próprios privilégios e categorias dominantes que compõem a sua dança, a sua forma de dar aula, a maneira como se relacionam com o seu parceira/os. A mudança do discurso não é suficiente se a nossa prática seguir sendo hierárquica, se as piadas seguirem constrangendo os corpos nas suas diferenças, se a dança seguir sendo a mesma. Se seu corpo na dança e na vida não mudou ao começar a pensar sobre condução compartilhada, então há algo que precisa ser revisto.

Segundo é preciso conversar e dançar com outras pessoas que estão fazendo isso, esse é um movimento em rede, em coletivo. Escute as outras histórias, principalmente de mulheres, perceba os corpos diferentes e valorize isso.

Terceiro vamos seguir pensando e provocando a discussão, ela não encerra por aqui porque é vida, né galera. Enquanto seguirmos respirando a condução compartilhada segue sendo oxigenada, o processo de reinvenção é diário 😉

Um abraço bem delícia para os que leram até o final!

Roda de Conversa no Congresso Contemporâneo de Dança de Salão em BH. Foto Gilberto Goulart

Eu, Carolina Polezi, Marina Coura, Laura James, Débora Pazetto e Fernanda Conde. Uma mulherada de peso que pensa e vive condução compartilhada! Foto: Gilberto Goulart.