Sobre Drama no Salão, Senhora-Trepadeira e Paola-Inquieta

A Nina, Karenina de Los Santos, me fez um convite em 2015. Ela queria pesquisar dramaturgia nos processos de criação a partir da dança de salão. A pesquisa dela já ocorria nesse sentido na dança contemporânea, e quando ela começou a trabalhar com dança de salão percebeu que pouco ou quase nada era feito nessa área. Isso tudo decorre, a meu ver, muito devido ao fenômeno da dança de salão se dar no âmbito social, ou seja, a experiência da mesma ocorre através dos bailes e festas para se dançar a dois. Embora, nos tempos atuais muitos professores vejam nessa prática uma fonte para desenvolver suas pesquisas cênicas, em muitos casos isso é feito através do desenvolvimento de coreografias que visam apresentar um aperfeiçoamento técnico e servem como demonstrações de movimentos virtuosos. Claro que já é possível citar grupos e dancarinxs que estejam desenvolvendo pesquisas cênicas mais aprofundadas como é o caso do Casa 4 (BA); Grão (SC); Terceira Margem (MG); ou ainda o trabalho de investigação de movimento a partir da linguagem do tango e a improvisação que desenvolvi com o Giovanni Vergo nos últimos anos que resultou em diversas performances e compôs também o espetáculo Corpobolados (2015-2018). Há outras pessoas, com certeza não citei alguém nesse texto, pois já estamos vivendo novos rumos dessa prática. (Vou falar em outro post daqui uns dias sobre a experiência do 2º Encontro de Dança de Salão Contemporânea).

Drama no Salão com Karenina de Los Santos

Foto Stephany Lotus – Eu e a Nina em 2016 mostrando um fragmento da pesquisa na Mostra de Porcessos do Necitra.

Mas vamos voltar aqui para uma questão que me atravessa que é: como pensar na dança de salão como procedimento de criação?

Há meu ver, quando pensamos em um processo de criação não podemos nos limitar em transformar os movimentos que são feitos na prática social e recoloca-los no palco. Nesse processo de copiar e colar do salão de baile para o palco muito se perde, e o que vemos realmente parece não fazer sentido. São processos singulares e que através desse tipo de procedimento perdem características que os tornam especiais, o baile por si só pode ser uma experiência estética incrível, é um espaço coletivo onde coisas ocorrem devido o encontro espontâneo entre pessoas. O ato de criar para a cena é um outro caminho, é preciso pensar no que estaremos enfatizando, pensar em como isso pode vir a atingir aquela pessoa que se disponibiliza estar lá para assistir, ser responsável pelos significados que vão emergir.  Com certeza, poderia falar mais sobre isso, mas quero enfatizar como foi o processo de elaboração do Drama no Salão a partir da minha perspectiva de dançarina colaboradora-criadora desse projeto.

Nesse sentido, penso em quais os princípios que a dança de salão foi me auxiliando a construir nesse corpo dançante ao longo dos anos.  Hoje reconheço uma habilidade de improvisação, uma escuta ao corpo do outro, uma possibilidade de comunicação ao dançar com a outra pessoa que muito foram desenvolvidas através dessa prática. E elas me auxiliam e me fazem dançante através de uma via singular, um corpo que se forma para dançar com o outro. Minha principal formação em dança em tempo e estudo me coloca para estar em relação com o corpo do outro. Isso me constitui enquanto pessoa, e me auxilia em muitas situações da vida, mas também me traz desafios, por exemplo, em alguns momentos de improvisação me perco fácil dos meus impulsos porque quero muito estar com o outro. Facilmente o outro parece mais interessante do que o que eu havia começado a fazer, enfim, questões de dança que PÃÃÃÃ são questões de vida também.

Mas voltamos a Nina, ao Drama no Salão e a esse processo de criação, se é que vocês que me leem ainda estão acompanhando meu devaneio. As minhas pesquisas com a Nina começaram por aí, não queríamos chegar em lugar nenhum num primeiro momento. Queríamos experimentar como nos abraçar de diferentes formas, queríamos jogar com as vestimentas que percorriam nossos imaginários de dança de salão, caminhar juntas pela sala, como era alterar as velocidades dos movimentos que conhecíamos, como era dançar sozinha o que fazíamos juntas…

Experimentamos, dançamos, experimentamos mais um pouco.

Assim aos poucos começamos a perceber a dramaturgia ir chegando, apontando para o que o universo dos bailes de dança de salão nos provocavam, o ato de estar em um baile, o que acontecia nesse lugar. E buuuuuuum, algo começou a ficar muito latente, éramos duas mulheres dançando algo que não está de acordo com as normas desse espaço. Éramos duas mulheres, mulheres que dançam que são independentes que conduzem e são conduzidas, que batem boca quando sofrem situações de opressão nesse espaço. Mas ainda assim éramos duas mulheres que apesar de críticas a esse espaço-tempo dança de salão também já sofreram diversas situações desconfortáveis, que já tiverem seus trabalhos deslegitimados, que já tiveram seus corpos julgados e controlados para serem belos, delicados e sutis, que já foram assediadas e que já não foram tiradas para dançar.

Assim fomos desenvolvendo essa pesquisa pensando nos dramas que atravessavam nossos corpos de mulheres na dança de salão. Chegamos a ir em bailes, queríamos ver como acontecia ainda esses bailes para além dos espaços das escolas de dança que frequentávamos, queríamos ver como eram essas mulheres. Eu lembro que chegamos empolgadas no Baile de domingo à tarde que começava às 15h da tarde, fomos arrumadinhas e passamos até batom nesse dia.

Lá estava aquele salão imenso com gente dançando, na maioria pessoas de idade, definitivamente éramos as mais jovens, havia diversas regras sobre como se portar e dançar naquele lugar. Luzes coloridas piscavam, um tecladista tocando e cantando só clássicos, pessoas rodando e dançando a dois com seus corpos de diferentes formas (nada muito padronizado como nos bailes de escola), e nos ali observando e atentas em ver como as danças ocorriam. Contudo fomos percebendo que o que mais nos chamavam atenção eram algumas mulheres, senhoras, bem arrumadas, que esperavam em suas cadeiras uma oportunidade de dançar. Elas eram um misto de escultura com trepadeira, na minha percepção, estavam apoiadas na cadeira e na parede na espera de algum convite para adentrar no salão que rodava, porém, o convite nunca vinha.

Fomos ficando deprimidas naquele lugar, assim como aquelas que esperavam.

Eu jamais vou me esquecer da senhora trepadeira que parecia fazer parte daquele baile, como se ela sempre estivesse esperando naquele lugar. Eu pensava será que ela já dançou muito anos atrás? Será que ela vem todos os domingos esperar? Será que ela se arruma todos os domingos para vir esperar uma possível dança?

Os olhos dela eram perdidos na imensidão já estavam cansados de buscar….

Eu jamais vou esquecer esse olhar vazio, um vazio de imensidão do ato de esperar.

Amanhã quando entrar para dançar o Drama no Salão, danço por ela, pela sua espera, danço por mim por saber usar da escuta e do ato do esperar como procedimento para criar, e não para paralisar. Sei da minha responsabilidade de artista de estar ali dançando, nesse momento, nesse tempo-político sombrio, por isso me faz muito sentido dançar pela senhora-trepadeira. Assim como ela há muitas de nós sendo silenciadas na dança e na vida, na constante espera de que um convite seja feito.

Eu aceitei o convite da dança de dançar para viver. Mesmo sabendo que sempre, constantemente, querem que eu volte a esperar algo ou alguém. Por isso optei em dançar, sim vou dançar o ato de esperar.

 

Drama no Salão

Dia 22.11.18 às 20h na Sala Álvaro Moreyra, Av. Erico Veríssimo, n º 307

Dia 23.11.18 às 20h no Teatro Hebraica, Rua João Telles nº 508

Quanto: 30,00 (inteira); 15 (classe artística, estudantes e melhor idade)

Karenina e Paola 018

Ficha Técnica

Concepção e direção: Karenina de Los Santos
Criação e interpretação: Karenina de Los Santos e Paola Vasconcelos
Iluminação cênica: Gabriel Martins
Luz cenográfica: Karenina de los Santos
Figurino: Antonio Rabadan
Trilha sonora: Paola Vasconcelos e Karenina de los Santos
Design gráfico: Fernanda Boff
Produção: Karenina de los Santos e Fabrício Sortica
Fotos: Joseane Bertonccello

A morte da tradição, mas não da dança de salão

Quando dançamos temos a possibilidade de criar outras formas de se relacionar com o mundo, com o outro com o seu próprio corpo. A dança a dois pode ser campo político para perceber a potência que os gestos podem ter na nossa existência. Hoje escrevo diferente porque em parte fui atravessada por Ilana, Guilherme, Carol, Carlos, Kelly, Débora, Camila,… Estava lá disponível para acolher o outro, e perceber o que juntxs poderíamos descobrir durante esses encontros dançantes ao longo do final de semana. Respirações que se sincronizam, toques que deslizam, seguram, escorregam e pressionam. Danças emergentes de outro lugar, criação de pequenas ficções a dois. Quando o dançar a dois é pautado pela escuta do outro e o desejo de se estar juntxs outros mundos começam a ser construídos. Através dessas trocas ao dançar, nesses processos de desconstrução, é que podemos tornar uma prática que aparentemente está fixada em estruturas normativas e padrões de gênero em algo que subverta e reinvente outros modos de existir.

Contudo, para que isso possa acontecer, para que eu possa estar ali aberta ao acaso, ao outro e ao encontro, é necessário horizontalizar. Se colocar em movimento, ir ao chão, desapegar, desprender, desequilibrar, desestabilizar, talvez até cair. Horizontalizar a dança de salão, os espaços onde ela existe, as formas de acessar e compartilhar esses saberes, e os modos de dançar.

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Eu e Ilana – Improvisando e descobrindo formas horizontalizadas de dançar juntas

Pensar em uma dança onde a proposição de movimento seja fluída, e onde se tenha como desejo principal uma tentativa de coexistir dançando. Uma dança que seja plural, acolhedora, sob vias de cuidado consigo e com outro, mas que ao mesmo tempo tenha engajamento, fricções e desafios é algo que tem me mobilizado enquanto criadora-educadora de dança de salão. Não é uma tarefa fácil, é exercício diário de desapego do “eu”, do querer fazer a todo tempo, pois é acreditar na possibilidade de um outro eu, algo que é coletivo. Algo que está no cerne do encontro, no entre os corpos e que vai amadurecendo a cada nova dança.

Nesse sentido, destaco a importância do Baile Contemporâneo de Dança de Salão, organizado pela Companhia Dois Rumos de SP, o qual vem tentando articular e potencializar um espaço onde a prática social do baile possa ser horizontalizada. Sinto uma alegria enorme de chegar em um espaço de dança de salão onde haja homens dançando com homens, mulheres com mulheres, propostas de movimento conhecidas da dança de salão e/ou experimentações com outras danças. Tudo em um único espaço, acontecendo sob o mesmo lugar e de maneira fluída. Há mais de um ano a companhia tem desenvolvido essa atividade em São Paulo, e com isso tem articulado um movimento intenso de pessoas interessadas em repensar as formas de dançar a dois.

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Final de Baile da Dois Rumos, junho de 2018.

Tenho que destacar a quadrilha diferentona que rolou, afinal era Arraial e nada mais justo do que ter aquele bom momento de dança coletiva. Além de poder compartilhar olhares e sorrisos com todxs os presentes, a melhor parte era ver o cuidado da organização em reinventar essa forma de dançar. O discurso muda, atualiza e faz englobar a todxs. Vemos ainda um “medo” quando se falam nessas propostas contemporâneas de fazer-pensar dança de salão, como se elas fossem aniquilar uma tradição. Eai a gente vê a quadrilha rolando, sem papéis de gênero definidos, e o principal, que é todo mundo dançar junto, acontecendo em máxima potência. A mudança, o desconhecido pode até gerar um certo receio no primeiro momento, mas não podemos mais continuar insistindo em “tradições” que oprimem e marginalizam. A dança de salão vai continuar existindo, só não precisa ser da maneira normativa que se encontra.

Só não vale manter o tradicional e vir com o slogan que todos podem dançar e ser feliz, porque eu e várias outras pessoas não nos sentimos bem nesse espaço. E não vamos nos retirar porque queremos dançar dança de salão, e já estamos criando e reinventando espaços, redes, danças, encontros para dar vazão a uma dança de salão feminista, LGBTQ+, queer,….

Voltando a horizontalidade, além da Dois Rumos pude conhecer pessoas interessantes que estão sendo protagonistas desse movimento por lá.  A fantástica Ilana Majerowicz que vem buscando pensar em propostas de ensino da dança de salão contemporânea que sejam processos de experiência para além da ideia do compartilhar algo de maneira vertical. O Guilherme Akido que está começando a articular esse processo em Santo André, a Joana de Barros que está iniciando uma pesquisa acadêmica sobre o tema, e mais um monte de gente iluminada que cruzei nesse final de semana. Pude também reencontrar a minha querida amiga e parceria Carolina Polezi. Nossa distância não está impedindo que os nossos improvisos sejam vivos, além é claro das nossas conversas instigadoras que já são uma marca desse encontro.

Ver outras pessoas trilhando caminhos diferentes dentro dessa área me mobiliza, e faz crer que estamos amadurecendo essa rede de compartilhamentos via dança-conversa-reflexão pelo Brasil. Espero que possamos cada vez mais ampliar os espaços, conversas e danças por aí!

Finalizo esse texto me perguntando o que poderíamos fazer para deixar essa prática de dança de salão expandir para outros espaços para além desses lugares e pessoas que já frequentam o universo da dança. Afinal não são todos que tem o privilégio como eu de poder estar pesquisando esse universo. Como podemos estar sempre trabalhando esse processo de horizontalidade nas nossas danças? Como criar propostas artísticas-educadoras sob esse princípio? Até que ponto estamos dispostos a chegar, será que queremos chegar em algum lugar?

Para quem quiser conferir: Improviso Carolina Polezi e Paola Vasconcelos

Dança de Salão Queer

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Vamos começar o ano dançando?

Trago nesta postagem a divulgação de uma nova proposta de aula que começarei a trabalhar esse ano no Azul Anil Espaço de Arte.  A ideia da Dança de Salão Queer surge de um ambiente aberto onde todos os tipos de casais são bem-vindos. O objetivo dessa oficina é vivenciar as danças a dois como uma fonte de comunicação entre os corpos, criando-se assim um espaço de troca, aprendizado e sociabilidade.  Ao longo do curso serão trabalhadas danças como bolero, tango, samba de gafieira, forró, salsa entre outras. As turmas serão pequenas e o atendimento personalizado, as aulas serão de uma hora. Haverá duas turmas todas as terças-feiras uma iniciando às 19h e a outra às 20h. Não é necessário ter par para fazer a aula.

A Dança de Salão Queer se baseia em um movimento que já vem ocorrendo pelo mundo especialmente na prática do tango. Essa perspectiva almeja uma dança que não se limite aos padrões heteronormativos de “Cavalheiro” e “Dama”. A proposta ainda viabiliza que exista uma troca constante entre as os papeis de proponente e seguidor.

Ficou curioso?

Venham fazer uma aula experimental. Agende a sua aula através do email: lolarte.14@gmail.com ou azulanil.espacodearte@gmail.com . É necessário encaminhar apenas o nome completo, telefone para contato e o horário que desejas participar.

Compartilho alguns vídeos que tem tudo a ver com o trabalho que será realizado durante a oficina:

Primeiro é de uma dupla de bailarinos Mariano Garcés e Alejandro Figliolo bastante conhecida no universo do Tango Queer:

Nesse segundo temos um vídeo arte de 2008 realizado por Juan Sebastian Torales, que especialmente depois dos 2min a uma dança incrível das bailarinas Fatma Oussaifi e Kahena Saighi:

E por último trago uma iniciativa que rolou em Buenos Aires onde foi realizado um FlashMob chamado “Un Tango Contra La Homofobia”:

Aguardo vocês então para acompanherem e divulgarem esse novo projeto.

Informações  Dança de Salão Queer

Horários: Terças-feiras das 19h às 20h e 20h às 21h.

Valores: R$ 100,00 por pessoa podendo haver um desconto de 10% para o casal.

Taxa de matrícula: R$ 45,00

Local: Azul Anil Espaço de Arte na Rua Dona Eugênia, 836.

Informações: lolarte.14@gmail.com -(51) 8139.5519 ou azulanil.espaçodearte@gmail.com – (51) 3029.0994