Por que uma Aula-Baile de dança de salão contemporânea na vida da Paola?

Como seria criar um ambiente onde se pudesse aprender dança de salão, mas partindo do pressuposto da conexão consigo e com o outro? Um lugar onde as condutas controladoras que regem nossos corpos fossem dissolvidas e pudéssemos experimentar outros estados de estar em relação.

O que tu quer dizer com isso, Paola?

Aula-Baile de Dança de Salão Contemporânea

Foto de Luiz Felipe Ferreira da Aula-Baile de Dança de Salão Contemporânea.

Vou tentar explicar um pouco o caminho que percorri na dança. Assim, talvez você que está comigo nesse momento consiga entender o porquê a aula-baile de dança de salão contemporânea é algo que faz tanto sentido hoje na minha vida . Eu comecei a fazer dança de salão quando tinha 14 anos, e desde então nunca mais consegui parar. É incrível estar em contato com o corpo do outro, se comunicando através da dança, improvisando juntos, ir descobrindo caminhos a dançar jamais imaginados. Uma dança a dois, só funciona quando alguma conexão entre a dupla se instaura.

Esse é a parte potente, e que de fato torna a dança de salão uma prática muito especial. Porém a maneira como ela tem sido ensinada-pensada-praticada a partir de um sistema de condução pautado em dois papéis (condutor-conduzida) traz uma série de enrijecimentos nos nossos corpos. Vamos entender corpo como tudo aquilo que envolve o processo de estar vivo e em relação com o mundo. Então é muito mais do que uma estrutura material, corpo anatômico, mas nossa sensibilidade, os pensamentos, as percepções, entre outras coisas.

Esses papéis na dança têm muito a ver com os estados bem limitados que compreendemos do que é ser homem e mulher. Por exemplo, cavalheiros condutores são seres que planejam a dançam, racionais e fortes. Damas são sensíveis, se conectam com suas emoções e são delicadas. Só que o problema desses papéis é que eles não consideram as inúmeras variações que existem em cada pessoa viva, e inclusive geram uma pressão para que nós  mulheres e homens tenhamos que nos adaptar a eles.

Eai galera, que comecei a sentir na pele uma ausência de desejo de seguir frequentando os espaços da dança de salão. Eu como mulher deveria ser conduzida. Esse papel que me cabia na dança é algo extremamente prazeroso, desenvolver minha sensibilidade para aceitar as proposições do outro. Só que ele começou a me limitar. Precisava que um homem me tirasse para dançar e se isso não acontecia eu acabava não dançando todas as músicas que queria. Quando dava aula com parceiros homens, eles sempre acabavam falando mais, tendo mais espaço para explicarem os movimentos.

 

Eu sei que existe uma esfera onde precisei ir ganhando confiança na minha capacidade enquanto professora e dançarina nessa área. Só que tudo isso fica muito (mas muitoooo) mais difícil quando há um sistema inteiro reforçando e reiterando a figura masculina. Os homens são mais capazes, os que devem ser mencionados nas divulgações, os que de fato tem o “conhecimento” da dança, ou seja, a condução. Sem contar as situações de assédio que já passei, por exemplo, quando um parceiro passou a mão em meu peito durante a dança intencionalmente. “Brincadeiras” foi a resposta que me deram quando fui reclamar na época para o diretor da companhia que dançava.

São inúmeras situações de violência e controle que passamos nessa prática como ela está instaurada. Mesmo depois de já estar há anos nesse exercício de me colocar como professora e dançarina independente de alguma figura masculina, facilmente sou chipada com algum parceiro que estou dançando na época. Não sou mais a Paola e sim a parceira de fulano.

Então, depois de anos vivenciando essas experiências passei a não sair mais para dançar. Não tinha percebido que não estava mais tendo prazer em dançar socialmente, e que a dança tinha passado a ser apenas um lugar de investigação. Isso foi incrível por um lado, porque nunca desisti da dança de salão, insisti, segui experimentando e acreditando que era possível fazer algo diferente. No início era bem solitário esse caminho, eu tinha um excelente parceiro que me possibilitava em sala de ensaio testar várias coisas, mas ele não tinha as mesmas angústias que eu. Não teria como ter, nossos lugares promoviam vivências diferentes.

Eai vem 2016, eita ano borbulhante, conheci a Carol (Polezi citada em vários textos aqui do blog) ela me disse que o que eu tinha escrito era muito importante, e que ela estava querendo pensar diferente assim como eu. Esse encontro me fez ver que era possível. Eu precisava encontrar outras mulheres, precisava assumir cada vez mais esse caminho, não tinha mais volta. Foi quando percebei que precisava chamar minhas colegas de Porto Alegre para conversar sobre ser mulher na dança de salão. Tudo começou a tomar uma proporção de vida tão grande, que me senti convocada a mediar esses processos e seguir provocando conversas sobre a dança de salão. Aí veio muitas outras mulheres que me inspiram Ilana, Laura, Anna, Fernanda, Kelly, Diana, Debora, Lidiane, Brigitte, Tati,… todas nós querendo repensar o que estava acontecendo nessa prática. Todas nós tínhamos histórias parecidas, por vezes, havíamos desconfiado do nosso próprio potencial. Juntas compreendemos que éramos mais fortes e que caminhos outros para essa prática já eram possíveis.

Bom chegamos então na nossa aula-baile de dança de salão contemporânea. É nesse espaço que hoje em parceria com a Brigitte depositamos os nossos desejos por uma dança de salão que possibilite experiências libertadoras. Uma dança que nos viabilize acessar a nossa sensibilidade, a abertura para o outro, nos permita ser vária-o-i-u-s.

O importante desse espaço é perceber que aprender a dançar pode ser prazeroso, e que para isso eu não preciso ser um papel ou outro. Passamos a nos conectar com as potências de cada corpo, a partir disso ir se comunicando ao mover. Também posso nesse espaço ser desafiado ao desconhecido, provando texturas que não imaginava serem possíveis. Aqui, eu posso estar aberto ao outro, pois primeiramente estou aberta a escutar o meu próprio corpo e a partir disso sensivelmente ir percebendo o mundo ao meu redor de uma maneira diferente.

 

 

É isso a aula-baile, um espaço de encontros. Chegamos percebemos como estamos, e vamos tecendo os passos de dança, brincando de dançar, jogando com os outros. Aceitando e acolhendo os outres e sentindo o dançar acontecer. Juntos. Dançamos e percebemos como é linda essa experiência de conexão com o desconhecido. Depois de vivenciar encontros como a aula-baile e mais um tanto de coisa que essa mulherada tem feito na dança de salão eu descobri que amo sair para dançar.

Percebi que me divirto dançando e que sentia muita falta disso. Amo sair para dançar hoje em dia novamente. Tô felizona com que está acontecendo!

Eu espero que vocês que me leram também possam sentir prazer dançando. Se por acaso pararam de dançar, pensem um pouquinho do porquê isso aconteceu. Quem sabe seja a hora de experimentar outras formas dessa dança de salão?

Quem quiser arriscar um dois para lá dois para cá comigo, chega junto no Espaço Mova, quinzenalmente, aqui no Rio de Janeiro. Seria lindo dançar-conversar!

 

Pensamento-dança os quais ecoam hoje sobre Condução Compartilhada

Oficina Dança de Salão Queer

Vivência de Dança de Salão Queer na Semana da Diversidade Sexual e de na FABICO. Foto: Yamini Benites.

Ontem estava participando de um evento sobre condução compartilhada no forró. Confesso que fico extremamente feliz e grata por estar podendo vivenciar essas ações no espaço da dança de salão. São anos pesquisando, investigando e propondo ações para reinventar essa prática, e perceber que há um movimento acontecendo, é algo que me deixa muito feliz. Essas ações não estão ocorrendo apenas nos espaços (in)visíveis, pensando na atuação das mulheres que normalmente acabam sendo invisibilizadas pela dança de salão majoritariamente masculina. A condução compartilhada pode ser tema de um evento de forró, as discussões sobre gênero são um dado material que atravessa os corpos que dançam.  Já que é necessário que se dialogue com as temáticas do nosso tempo, a dança de salão precisa acompanhar os fluxos da contemporaneidade.

Eu sempre me lembro o quanto me sentia sozinha quando comecei a trazer essas pautas para os espaços que frequentava, hoje me sinto acolhida por muitas outras colegas, e juntas somos mais fortes. Assim me sinto responsável e implicada a germinar faíscas de coragem para que outras mulheres possam desdobrar suas práticas a partir de um olhar crítico. Então é lindo ver como ontem os olhares de muitas mulheres brilhavam com as novas possibilidades de inserção e de poder vivenciar essa prática sem ter que se ajustar a uma ideal de dama inalcançável. Assim como vejo os ombros de muitos homens relaxando ao descobrirem que ainda que timidamente é possível acessar um corpo sensível, delicado e sutil. A dança enquanto função social, redescobrindo outras formas de estar em relação, buscando momentos de equidade e pluralidade. Muito bonito mesmo ver esses encontros.

Porém, algo como profissional me desperta uma luzinha de alerta. (Já aviso que não quero parecer possessiva em relação a essa temática porque acredito mesmo que essas práticas precisam ser disseminadas e possuir abordagens plurais)

Ontem ouvindo as aulas dos outros professora/es pensei que talvez ainda haja uma certa confusão no que se refere essa noção de condução compartilhada, e principalmente porque ela surge. A abordagem de condução compartilhada na dança de salão, é uma proposta prática que parte de implicações políticas muito precisas. Quando ouvi esse termo pela primeira vez foi a partir das provocações da professora Carolina Polezi de Campinas. Na época em 2016, percebi que a proposta da Carol dialogava com as implicações que eu também estava desenvolvendo ao pensar uma Dança de Salão Queer, as quais tinha duas provocações muito precisas: os papéis de gênero na dança de salão e a heterossexualidade como norma.

Essas duas pautas são decisivas para compreendermos porque se instaura essa proposta prática na dança de salão, porque ela é uma tentativa de subverter esses dois pontos. Então, sim a condução compartilhada é uma proposição para além do forró, porém ela não é apenas uma linguagem a mais na dança de salão. Ela não é uma forma dentro de todas as outras formas de dança, ela quer corroer esses padrões que estão colados nessas figuras na dança chamados de cavalheiros-damas. A condução compartilhada não desenvolve seus princípios a partir desses papéis, ela pressupõe a construção de corpos para a dança de salão que não estejam limitados a funções estereotipadas de categorias generalistas, e limitadas, do que é ser homem e mulher na nossa sociedade.

Além disso, ela estimula novas experiências, possibilitando através dessa vivência a exploração de outras formas de se dançar, ao incentivar que mulheres conduzam, homens sejam conduzidos, a buscar movimentos que todos possam ser criativos, a desconstruir essa lógica sensual padronizada na dança, a buscar um cuidado com os corpos. E isso não é algo que se dá espontaneamente, não é algo que ocorra sem que seja estimulado pelos profissionais que estão a frente desse processo.

Condução Compartilhada, então não é uma forma de dança apenas é muito mais do que isso é uma proposta de vida. Esse é um ponto caro para mim e para todas as outras mulheres e corpos que não se identificam com a norma heterossexual. Isso é muito importante para nós, porque infelizmente é nos nossos corpos que o sistema tradicional de condução e de dança de salão com seus papéis deixa as suas marcas, as quais são muitas vezes bastante doloridas. Sim galera, é a partir das experiências de violência que sofremos que essas propostas surgiram. É a partir do silêncio que fomos obrigados a fazer: seja na dança ao ter que apenas seguir; na sala de aula ao não ter espaço de fala porque nossos parceiros homens não permitiam; nos eventos que não divulgavam os nossos nomes; nos bailes em que não fomos tiradas para dançar. Na insegurança que nos foi gerada e no descrédito da nossa competência profissional simplesmente por sermos mulheres. Sem contar nos pontos subjetivos ao sermos massacradas para sermos bonitas, sensuais, gentis, educadas o tempo inteiro. Assim gerando tamanha disfunção que estamos sempre competindo umas com as outras, querendo nos ajustarmos a esses padrões.

Então condução compartilhada é prática de vida, uma vida que pulsa com força e quer romper desesperadamente essas condutas tóxicas e que nos tornam enrijecidos, enfraquecidos e submissos a tudo isso. Infelizmente meninos vocês estão em um outro lugar nesse processo, o que não quer dizer que essa loucura toda não seja enfraquecedora e dolorida aos corpos de vocês. Não há dúvida que isso os atinge também. Porém há uma posição diferente no jogo e necessário reconhecer esse lugar antes de qualquer outro passo.

Assim, minha dica para qualquer professora/es que estejam pensando essas práticas na contemporaneidade. Primeiro é precisam começar a romper inicialmente com os próprios privilégios e categorias dominantes que compõem a sua dança, a sua forma de dar aula, a maneira como se relacionam com o seu parceira/os. A mudança do discurso não é suficiente se a nossa prática seguir sendo hierárquica, se as piadas seguirem constrangendo os corpos nas suas diferenças, se a dança seguir sendo a mesma. Se seu corpo na dança e na vida não mudou ao começar a pensar sobre condução compartilhada, então há algo que precisa ser revisto.

Segundo é preciso conversar e dançar com outras pessoas que estão fazendo isso, esse é um movimento em rede, em coletivo. Escute as outras histórias, principalmente de mulheres, perceba os corpos diferentes e valorize isso.

Terceiro vamos seguir pensando e provocando a discussão, ela não encerra por aqui porque é vida, né galera. Enquanto seguirmos respirando a condução compartilhada segue sendo oxigenada, o processo de reinvenção é diário 😉

Um abraço bem delícia para os que leram até o final!

Roda de Conversa no Congresso Contemporâneo de Dança de Salão em BH. Foto Gilberto Goulart

Eu, Carolina Polezi, Marina Coura, Laura James, Débora Pazetto e Fernanda Conde. Uma mulherada de peso que pensa e vive condução compartilhada! Foto: Gilberto Goulart.