Um manifesto salivar – desintoxicando os corpos da dança de salão

Bem- Vindos,

Vou convidar vocês para dançar comigo atualizações de pensamento-dança do artigo “Pela urgência do fim da boa dama – os papéis de gênero na dança de salão”. Ou talvez isso seja uma carta, um manifesto, ou um acendedor de fogueira-pensamento, ou nada disso.

Já de antemão oriento que aqueles que têm estômago fraco ou sua masculinidade fragilizada que preparem o saco de vômito, pois não me responsabilizo por náuseas que vocês podem vir a sentir. Vocês sabem, se leram o artigo indicado, que eu trabalho a partir da experiência do sentir, principalmente de dar voz ao corpo em movimento. Venho há alguns anos convocado algumas mortes dentro do cenário da dança de salão. Obviamente são imagéticas, apesar de hoje possuir um devir assassino de querer matar o presidente. e isso não seria metaforicamente.

Falo e escrevo sempre a partir da minha experiência de mulher cis-gênero, branca, classe média e bissexual, isso me auxilia a localizar meus privilégios nessas hierarquias de credibilidade. Porém, já gostaria de dizer que cada categoria dessas não me limita, e que estou me transformando intensamente, provavelmente, já estarei outra quando nos encontramos virtualmente.

Hoje vou falar sobre o processo de construção da performance La Bruja, que talvez alguns de vocês tenham presenciado no Encontro Contemporâneo de Dança de Salão em São Paulo em novembro de 2019. Essa ação visceral, a qual convoco o meu corpo, têm se desdobrado e tomado parte do meu processo de vida. La Bruja, ou Bruxa, é um vômito, um sintoma do corpo orgânico que desesperadamente coloca via boca tudo aquilo que o corpo não consegue digerir. Intoxicação subjetiva-moral de ser uma “boa” dama-mulher.

Todo o processo artístico dessa performance perpassa por como transformar o meu corpo em algo que atravesse, para além dessa matéria que se move com tamanha fluidez e tem suas artimanhas técnicas para sustentar o olhar de outros enquanto danço. Algo que fissure sensorialmente. Não queria causar isso ou aquilo, mas queria promover o sentir.

Vou até aquela reunião de pessoas que testemunham a minha dança e anúncio que irei vomitar. Passo então a babar, esse gesto surgiu em um dia de experimentação quando tentava me aproximar de instintos animais que poderiam ser criados dentro do meu corpo. Imaginei um animal prestes a atacar outro. Faminto. A saliva surgiu naturalmente, se conectando com o impulso de matar para saciar a fome. A fome, o desejo, aquele instinto que nos faz viver para não sermos mortos. Então a saliva é esse excremento inapropriado assim como o sangue, fluídos que nos conectam com nossa animalidade. O corpo não domesticado. figuras monstruosas não humanas. Tudo aquilo que escapa do corpo asséptico.

[Ação em diálogo com o deslocamento feito pela autora Barbara Creed em sua análise sobre os filmes de terror, onde a mulher não é a vítima, mas o monstruoso em si capaz de desafiar o patriarcado. Leitura que além de desdobrar na performance La Bruja também subsidia e inspira a performance-instalação Malditas em parceria com as artistas Débora Pazetto e Kamilla Hoffmann.]

Diga-se de passagem, que todas as vezes que performei ou que La Bruja existiu em carne em mim, eu estava menstruada, porque também compreendi que ela não aparece porque precisa, mas porque ali, algo está morrendo.

Sim. Eu morro. Partes minhas ali morrem. Viro uma lagarta-cobra ao babar e desfrutar do impulso de desejo que há em mim. Um devorar-se de si. Me masturbo em homenagem a todas as histéricas que habitaram nossa sociedade patriarcal. Toda a angústia, a culpa, o pudor, a depressão dos corpos femininos vazando em matéria. Há um deleite em virar bicha-mostra e ver a Paola-Humana se desfazendo aos olhos dos outros. Essa monstra agora pode caçar. Arrancar a cabeça de seus opressores. É o desejo assassino que emana.

Percebi que educar as mulheres a serem boas damas é enquadrar seus corpos em uma lógica de que precisam se comportar, e necessitam serem salvas sempre pela figura masculina, oh pai, oh marido, oh parceiro de dança…. Você pode dançar sensual, mas cuidado com que veste nas ruas. Você pode transar, mas cuidado, se dê o respeito, se não vai ganhar fama de galinha. Valorize aqueles homens que te tratam com respeito. Ah como é bom ter um parceiro que me protege. Por aí vai um monte de absurdos que vai sendo injetados em nossos corpos, assim como os agrotóxicos que lançam de maneira autorizada sobre os alimentos que consumimos.

Tudo isso vai calcificando uma dependência subjetiva como se precisamos deles. Esse estado vai te paralisando, o medo congela o corpo. Isso nos torna presa fácil. Quanto mais na minha andava pelas ruas, mais recebia olhares invasivos de homens nas ruas. Quanto mais gentil e calada eu fosse, mais abusada eu era. A dama é esse objeto de desejo que precisa ser gentilmente cuidado. Isso também carrega uma sombra que é o fato dessa mulher ser coisa, e com isso se pode fazer o que se quiser. Afinal há sempre um dono homem por aí, mesmo que nem a conheça, os instintos masculinos falam mais forte. Foda-se se ela está bêbada, se ela é uma criança, se ela nem me conhece, todas elas estão abaixo de mim o ser homem-cavalheiro-soberano.

Paola, por favor, sim é verdade que isso acontece muito. Mas, veja bem somos todos homens que estamos nos desconstruindo diariamente. Estamos aqui em busca de práticas mais plurais de dançar.

Verdade. Estamos todos aqui buscando caminhos, mas te pergunto porque você homem insiste tanto em falar, porque você fura a fila de inscrição na frente das mulheres, porque você pega a palavra sempre, sempre, sempre,… Difícil assumir o lugar de só escutar né. Chato ter que lidar com seu lado escroto. Assumir que você tá, vira e mexe, se agarrando no seu privilégio de ter sempre a palavra. Então, companheiros, para educarmos corpos para uma dança onde a desigualdade entre os gêneros desapareça não basta apenas darmos liberdade e emancipação para as mulheres. Tratasse também de ensinarmos aos homens que vocês vão ter que perder poder. É necessário perder parceiros.

Nesse sentido, provoco meus companheiros de diálogo a repensarem seus textos e falas. Eu pouco li textos testemunhos de homens dizendo o quanto se responsabilizam por ações machistas, só vejo discursos de afirmação dos novos “feministos”. Não vejo vulnerabilidade sendo trazido em relatos, o quanto o sistema de condução oprime os corpos masculinos. Porém vejo muitos textos de autores homens discutindo sobre os conceitos e as abordagens na dança de salão na contemporaneidade, todos querendo assegurar qual é o jeito mais adequado. Todos ainda muito centrados no pensamento racional, não vejo nenhum texto mundano vindo dessas figuras. A lógica de pensar e colocar as ideias ainda permanece sendo pautada por uma escritura do homem racional.

Fartas estamos, não sou só eu. Exercitem mais suas escutas e tentem não trazer o pensamento de cara. Quem sabe seja a hora de vocês se conectarem com emoções ao invés das reflexões, vivam o espaço íntimo. Chamem a sombra para dançar, sejam conduzidos vocês pelo cavalheiro que há em cada um. Depois exercitem criativamente possibilidades de desintoxicação, descongelamento de armaduras, de esvaziamentos para que assim outras coisas possam surgir.

Deixem o espaço público, nesse primeiro momento, para ser ocupado por corpos que sabem muito bem o que é vivenciar o silêncio. Talvez seja isso que estejamos precisando, por hora.

Manas, eai onde estão as monstras? O que vocês precisam babar? Convido-as para separar um momento do seu dia hoje e experimentarem esse exercício. Precisa ter coragem, mas garanto que no final pode ser interessante. Se posicione de um jeito confortável, feche os olhos, assegure que sua roupa não está pressionando a sua barriga. Respire e expire profundamente. Pense em todas as situações de opressão que você vivenciou na dança de salão-vida. A cada memória amarga vá produzindo e acumulando saliva dentro da boca. Quando estiver pronta, relaxe a mandíbula e se permita escorrer. Deixe esse líquido cair, pode ser que ele deslize sobre seu corpo ou cai direto no chão. Não se importe com nada, apenas sinta. Se permita. Babe o quanto achar necessário. Depois se sentir vontade em um ímpeto dance aquilo que vier desse encontro. Viva a experiência selvagem de se conectar com um fluído não domesticado sendo cuspido para fora, algo seu. Um protesto salivar.

Caso você seja trans ou tenha uma experiência desviante da heteronormatividade você pode experimentar ambos os processos ou ainda te sugiro que você possa inventar outros. Se criar algo, compartilha com a gente porque estamos sempre precisando vivenciar oportunidades de desterritorializar a cisheteronormatividade diariamente.

Nossa Paola, mas o que isso tem a ver com dança de salão. Primeiro porque quero e meu desejo é o guia desses textos.  Então eu sempre pesquisei a dança de salão como caminho de investigação artística, então sim, o processo como componho perpassa princípios que desenvolvi a partir da prática de dança a dois. Sejam por princípios práticos como a improvisação durante a ação ou o olhar para os parceires de cena como iguais e influenciadores do meu mover sejam eles objetos ou pessoas. Ou pelo contexto que dispara a construção performática, como é o caso dessa ação que quer vomitar a dama. Foi essa prática que domesticou de maneira eficiente a minha performance de feminilidade.  No fim das contas o que percebi depois desses anos é que essa mulher-dama está-estava incrustada em várias esferas da minha vida. Então há esse exercício de reinvenção de si nesse processo. Lembrando que a performance enquanto campo de ação é diretamente conectada e influenciada por processos educacionais, sociais e artísticos. Então ser e estar também é fazer arte, porque arte e vida é uma coisa só. Eu que escrevo aqui, babo na performance, sou professora de dança de salão, transo, como, adoeço, danço, e é o mesmo corpo em todas as ações.

Por fim, eu acredito ser meu papel de artista e facilitadora de dança de salão convocar delírios e a imaginação para compor outros cenários para essa dança. A minha experiência não permite doses homeopáticas de reinvenção, ainda mais quando estou falando com pessoas comprometidas em formar praticantes nessa área. Para mim, a dança de salão, ou quem sabe a dança des-salão, uma dança de ação contrária que quer sair dos salões colonizados e ocupar outros espaços, quem sabe a rua.

[Delírio faiscante que surgiu depois da provocação da Nadiana ao trazer a questão colonial dessa prática, na conversa do grupo que tem se encontrado semanalmente para pensar as abordagens contemporâneas na dança de salão]

Esse movimento só pode acontecer se for convocado por uma multidão de monstras. Quando convocarmos as bruxas, os piratas, as putas, as possuídas, as histéricas, as bichas,…………… e tudo aquile que for desviante para ocupar a pista de dança. Caso contrário seremos novamente lançados a territórios estigmatizados.

Então, para mim a dança de salão e pode ser implodida e reinventada quantas vezes desejarmos e tivermos coragem de faze-la. Alguém aí disposto a dançar?

 

 

Dançar a dois em tempos de pandemia? A experiência do vazio

29 de abril de 2020,

Processed with VSCO with  preset

Foto de Luiz Felipe Ferreira

Uma data especial a todos aqueles que se sentem atravessados pela arte do dançar. Hoje é o dia internacional da dança, e eu já escrevi algumas vezes sobre essa data. Sempre reiterei a importância de valorizarmos essa prática, e muito já discuti sobre as questões políticas que atravessam essa área. Contudo, em tempos de pandemia, nunca havia passado pela minha experiência corpórea, nesses quase vinte e nove anos, a impossibilidade de contato com o outro.

A crise em que vivemos traz como medida de proteção e salvamento o não tocar, a ação de isolar nossos corpos de estarem se contagiando. Não quero que pareça que não estou de acordo com isso, jamais, acho que é o devemos fazer no momento. Só que o que quero falar é o tamanho do vazio, o qual eu nem sei transpor em palavras que estou vivenciando nesse momento. Eu, uma pesquisadora e artista especialista na arte de se relacionar dançando, sendo lançado ao mar de incertezas promovido pela experiência de não poder se relacionar. Sim, acima de tudo minhas pesquisas na dança sempre perpassam pelo tema da relação. Isso tem muita conexão com o modo como me reinvento e aprendo sobre mim diariamente, sempre através do olhar do outro. O outro sempre foi essa potência de cores que ao entrar em contato com as minhas forças e desejos durante o dançar nos permitia acessar territórios desconhecidos.

Isso acontece exclusivamente pelo ato de contágio, se não formos afetados, se não nos permitirmos ser infectados-atravessados pelo outro a dança a dois não acontece. Falava em meu tcc, de que o dançar a dois era a possibilidade de experimentar um ser a dois. Algo que extrapola a experiência individual dos corpos que dançam junto, e se estabelece a partir do encontro. Acontecimento que atravessa ambos e não pertence a ninguém, e que se dissipa quando os corpos encerram a dança. Talvez no contexto que vivemos o covid-19 seja esse ser a dois, a doença, um encontro entre corpo orgânico e o vírus. A doença que surge na relação. Por isso, mais do que nunca, pensar sobre como estabelecemos nossas relações com o outro se faz gritar para mim nesse contexto. O adoecer ao entrarmos em contato, quantas pessoas aqui já vivenciaram processos abusivos de se relacionar. O quanto que já falamos na dança de salão que o sistema de condução pode ser autoritário, abusivo entre os papéis e pode causar danos profundos nas experiências subjetivas das pessoas. Corpos cheio de cicatrizes e dores. Inclusive é o que mais já cruzei por aí,  pode incluir nessa conta o meu tá.

Nesse sentido, sem querer fazer panoramas a longo prazo, eu hoje deliro em como reinventar o dançar a dois em tempos de pandemia. Primeiro ponto se permitir sentir, e nada mais, lançar-se ao desconhecido do vazio no corpo. É isso. Não é fácil. Eu sou uma que resisto intensamente a experiência de sentir, já estou sempre querendo criar, reinventar, criticar, analisar, blá blá blá… Então para dançar a dois em meio a pandemia é necessário viver o vazio da incerteza, o vazio onde só a sua pele está. Na permanência desse estado, caso você consiga, talvez surjam as faíscas que nos compõem, vemos aquilo que nos colore das diversas formas, aquilo que queremos colocar embaixo do tapete. As sombras dançando em nossa frente como nunca antes, a finitude nos chamando para dançar abraçada com ela. É isso. Dançaremos na difícil, mas talvez profunda descoberta de outro dançar, o dançardesi.

O segundo desafio para dançar a dois, se permitir ser. Expandir aquilo que se é, deixar as expectativas e os julgamentos de lado, estamos isolados nas nossas casas mesmo. É hora de se conectar com aquilo que te move na urgência, aquilo que você deve fazer não entra aqui. Só aquilo que teu corpo te grita e diz: eu preciso que você me alongue aqui, me torça, me faça respirar profundamente, me faça sentir o chão e a base que é entregar o peso para a terra. Eu preciso de ar, água, força, base,…Eu não tenho dúvida que seu corpo deve estar te dizendo algo agora, talvez esteja até gritando com você. Escute. O que você está sentindo fisicamente nesse momento? Como está seu corpo? Sem racionalizar, responda precisamente.

Por fim, terceiro passo talvez esse é o mais sonhador de todos, mas isso é importante porque sem imaginação não sobrevivemos. Desperte a criança que está em você, chama ela para brincar. Coloque uma música que te mobiliza, ou se lance ao silêncio. Faça o exercício de olhar para o seu quarto, sala, onde quer que você esteja através dos olhos dela. Descubra aquilo que você nunca viu. Veja com o olhar de quem brinca de descobrir coisas e não sabe o que se é, ou melhor pouco se importa com que se é. Crie você o dançar e explore as possibilidades inimagináveis, navegue em mares desconhecidos, converse com seus fantasmas, seja outr@s,… Lembra de quando você era criança, aposto que não precisava muito para te chamar para brincar.

Talvez depois de tudo isso, quando em um futuro, possamos celebrar o contágio novamente. Esse dançar a dois em tempos de pandemia tenha nos ensinado a respeitar a nós. Estaremos celebrando e felizes por poder estar em contato, pois sabemos como é difícil estar sempre só. Todavia, talvez tenhamos descoberto que para nos colocarmos para dançar é preciso ser você em potência e que o outro por mais que te mobilize e te convoque aprendizados, ele jamais te arrasta. Ele jamais pode te diminuir. Ele jamais é mais interessante que você e sua vida. O outro existe para nos fazer crescer e descobrir coisas, mas nunca para te dizimar.

Estou com saudades imensas de compartilhar abraços dançandos, ministrar vivências contagiosas, rir dos caminhos incertos que descubro dançando com vocês. Meus desejos e afagos virtuais a todos que me acompanham. Feliz dia internacional da dança de si amores, e que possamos passar por isso. Tô com um aperto no coração, mas também me permitindo sentir….

20200408_125556

Parceiro, esse texto é para você!

Hoje vou escrever especificamente para os homens que tem trabalhado nas abordagens contemporâneas de dança de salão. Vocês constituem uma parte importante da nossa articulação enquanto movimento, porque ainda vivemos em uma sociedade patriarcal e, muitas vezes, suas vozes acabam sendo legitimadas antes das nossas (infelizmente). Suas práticas-falas podem acessar espaços, os quais nós mulheres não acessamos, porque temos experiências diferentes. Então é por isso que eu te peço companheiro, leia com atenção e corpo aberto, porque te quero perto. Então venho convocar sua ajuda, porque o machismo não está só na condução e nos modos como dançamos. Estamos diariamente passando por situações onde facilmente somos captados a reproduzir padrões, por vezes sutis, de ficar reiterando privilégios e oprimindo os corpos daqueles que já são oprimidos.

2806-2019-070639645840053456668

Essa cara sorridente é para te convidar a ler até o final, tá! (Foto Luiz Felipe Ferreira)

Então professor/dançarino/parceiro mudar a sua dança é um dos processos de investigação de reconfigurar sua experiência subjetiva enquanto homem.  Contudo, isso não é o bastante. Vou falar o que virá na sequência porque de fato não quero excluir vocês desses processos, mas fica muito evidente o quanto as parcerias entre homens e mulheres na dança de salão ainda precisam ser investigadas. Aqui eu vou trazer bastante o contexto profissional, porque tô IRRITADA de ficar sozinha argumentando coisas básicas contra um sistema todo. Fatos esses que não se fazem presentes nas parcerias entre mulheres, nossas questões são outras, por isso o meu direcionamento a vocês. Talvez se eu conseguir a ajuda de vocês as coisas possam se ampliar, e as nossas práticas em dança possam ser potencializada. Assim como tenho certeza que suas parceiras se sentiram muito mais legitimadas, respeitadas e acolhidas.

Então, gato, por mais que sua intenção seja a melhor possível estamos nesse jogo há anos em posições desiguais. Isso pode ter diversas nuances e variações ao longo da vida e da experiência de cada um, fatores como raça, classe também serão determinadas, porém não há como negar os privilégios que a condição homem instaura. Sem discussão nesse ponto. O machismo é tóxico para a experiência de ser homem, sim. Contudo, não há como negar que você tem acessos diferentes socialmente do que nós MULHERES. Então eu queria trazer pequenas ações anti-machismo que podem auxiliar nesse processo de investigação:

Reconheça seus privilégios. Aceite que você vive e foi criado dentro de uma estrutura machista. Então você pode não estar ileso de cometer uma ação machista. Lembrando que silenciar-se diante de uma a ação machista de uma pessoa ou instituição é reiterar o machismo.

Escute sempre um retorno crítico da sua parceira de dança. Não se defenda de imediato, pense e acolha aquelas palavras antes de tomar qualquer atitude defensiva. Muito provável ela te trará uma experiência que você não percebe, porque quando temos privilégios dificilmente percebemos que os temos.

– Apoie sua parceira quando ela aponta alguma atitude machista seja em aula ou contra alguma instituição. Não se coloque como desimplicado. Assegure que você está ao lado dela.

– Pergunte sobre como tem sido suas ações e falas para com suas parceiras, principalmente, crie um campo aberto para o diálogo. Há ainda uma cultura muito enraizada de silenciamento nas nossas experiências enquanto mulheres, então, muitas vezes podemos não estar conseguindo comunicar os nossos incômodos.

Confira as divulgações realizadas quando vocês forem ministrar aulas, veja se consta o nome de sua parceira. Reclame quando não estiver o nome dela, ou ainda quando colocarem o seu nome antes sem seguir a lógica alfabética. Se ela for tratada pela instituição sem o mesmo rigor que você, não permita.

– Não permita a cultura de se referirem a sua parceira como “Parceira de Fulano”. Enfatize que ela tem um nome próprio.

– Abra espaço e valorize que as mulheres tenham o mesmo tempo de fala em aula.

– Não faça nenhum tipo de “piada” constrangedora em aula, principalmente com algum grupo que já oprimido e não permita esse tipo de situação na sua presença.

– Valorize os saberes das professoras mulheres nessa área, não assuma os elogios sozinho desse trabalho. Saiba que esse movimento é pautado por muitas mulheres, e alguns homens também, então não se esqueça de trazer essas referências para aula. Perceba se você ao citar suas referências se elas não estão pautadas somente nos homens.

– Leia os textos já publicados por professoras mulheres, e ao citar pensamentos e inspirações em aula ou postagens referencie os nomes dessas pessoas.

Encerro esse relato dizendo que isso é um pouquinho do que podemos repensar juntos. Devem ter outras sugestões maravilhosas vou pedir para as Manas da dança de salão olharem o texto e irem acrescentando. Porque nesse texto rápido não consigo abarcar todas as possibilidades de experiências presentes

Porém, queria chamar para pensar vocês colegas homens que vem comigo trabalhando e pensando sobre as abordagens contemporâneas na dança de salão para se comprometerem nessa investigação. Vou usar uma citação incrível da filósofa Djamila Ribeiro, que muito tem me convocado a repensar a minha branquitude (porque sim querides todos nós precisamos investigar constantemente a nossas experiências de estarmos vivos, inclusive eu). No caso ela está falando de racismo mas também podem pensar em relação ao machismo.

“Não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a responsabilidade leva à ação.” (2019, p. 36)*

Então não se trata de se sentir culpado por nada e sim de agir, assumir os erros quando ocorrerem e se responsabilizar por desnaturalizar olhar condicionado pelo machismo e pelo racismo e criar espaços e lugares para que mulheres e negros consigam acessar. Bora rapazes se responsabilizarem e se implicarem com esse chamado!

 

Obs: Já termino falando que enquanto movimento de Dança de Salão Contemporânea precisamos urgentemente trazer o debate da raça e da classe para as nossas discussões, inclusive das minhas 😉

Obrigada Carolina Polezi, pela leitura amiga e incentivadora desse texto!

*Referência: O Pequeno Manual Antiracista, Djamila Ribeiro, São Paulo, Companhia das Letras, 2019

%*

Vida, é sobre isso por hora…

Hoje vou falar sobre vida, ou melhor sobre a minha experiência de estar viva nesse momento. Principalmente sobre a dificuldade de lidar com as minhas emoções. Sobre ser mulher no meio de tudo isso, e sentir uma grande insegurança em poder sentir as coisas que tenho passado. Curiosamente, descobri que tenho passado um certo sufoco interno por nem sempre conseguir expressar o que tem atravessado a minha pele. Parece que as emoções precisam vir sempre justificadas e esclarecidas como se elas precisassem ser acompanhadas de explicações. Sentir e vivenciar a raiva, o ciúmes, o medo, o amor, sem mais. Apenas deixar transbordar.

Uma vez me disseram que se eu chorasse perderia a razão em uma discussão. Hoje vejo que meus olhos (talvez por serem grandes) facilmente se preenchem de lágrimas as quais escorrem pelo meu rosto, e na maioria das vezes fico com vergonha e quero conter elas a todo custo. Parece que as lágrimas seriam o reflexo da minha fraqueza, das minhas inseguranças, das minhas faltas de sentido, e dos meus erros.

Elas são a prova do quanto o meu corpo sente, e muito, tudo que está ao redor. Não é algo ruim poder deixar que elas apareçam e que o chorar não descredibiliza todo o resto que sou. Não destitui a minha competência. Isso pode parecer talvez meio óbvio, mas na prática tenho percebido que tenho muitas restrições para colocar para fora as emoções. Talvez seja por isso que há anos sofro com alergias na pele. Seriam elas frutos de emoções sufocadas dentro desse corpo  inquieto?

Inquietações contidas dos bichos vorazes que me habitam e talvez possam ser demais para o outro, principalmente esse outro chamado bicho homem.

Curioso é pensar nessa tal histeria ou na imaturidade emocional, nas palavras de hoje. Qualidades lançadas aos corpos de mulheres que gritam, choram e agridem, em meio ao caos, e a temperatura exacerbada da panela de pressão em que vivemos para lidar com tantos bebês-adultos.

Queria hoje poder gritar, mas estou sem voz. Então me resta desabafar em palavras aqui nesse espaço. Cansada de conter o que não pode ser contido. Indisposta me sinto, ao me deparar de novo e de novo com ele que não consegue olhar além de si, preso a medos e discursos de liberdades vazios.

BICHO-BRUXA-FISSURANDO A PELE

LRM_EXPORT_186326277046671_20191030_213806694

Foto de Luiz Felipe Fereira

Por que uma Aula-Baile de dança de salão contemporânea na vida da Paola?

Como seria criar um ambiente onde se pudesse aprender dança de salão, mas partindo do pressuposto da conexão consigo e com o outro? Um lugar onde as condutas controladoras que regem nossos corpos fossem dissolvidas e pudéssemos experimentar outros estados de estar em relação.

O que tu quer dizer com isso, Paola?

Aula-Baile de Dança de Salão Contemporânea

Foto de Luiz Felipe Ferreira da Aula-Baile de Dança de Salão Contemporânea.

Vou tentar explicar um pouco o caminho que percorri na dança. Assim, talvez você que está comigo nesse momento consiga entender o porquê a aula-baile de dança de salão contemporânea é algo que faz tanto sentido hoje na minha vida . Eu comecei a fazer dança de salão quando tinha 14 anos, e desde então nunca mais consegui parar. É incrível estar em contato com o corpo do outro, se comunicando através da dança, improvisando juntos, ir descobrindo caminhos a dançar jamais imaginados. Uma dança a dois, só funciona quando alguma conexão entre a dupla se instaura.

Esse é a parte potente, e que de fato torna a dança de salão uma prática muito especial. Porém a maneira como ela tem sido ensinada-pensada-praticada a partir de um sistema de condução pautado em dois papéis (condutor-conduzida) traz uma série de enrijecimentos nos nossos corpos. Vamos entender corpo como tudo aquilo que envolve o processo de estar vivo e em relação com o mundo. Então é muito mais do que uma estrutura material, corpo anatômico, mas nossa sensibilidade, os pensamentos, as percepções, entre outras coisas.

Esses papéis na dança têm muito a ver com os estados bem limitados que compreendemos do que é ser homem e mulher. Por exemplo, cavalheiros condutores são seres que planejam a dançam, racionais e fortes. Damas são sensíveis, se conectam com suas emoções e são delicadas. Só que o problema desses papéis é que eles não consideram as inúmeras variações que existem em cada pessoa viva, e inclusive geram uma pressão para que nós  mulheres e homens tenhamos que nos adaptar a eles.

Eai galera, que comecei a sentir na pele uma ausência de desejo de seguir frequentando os espaços da dança de salão. Eu como mulher deveria ser conduzida. Esse papel que me cabia na dança é algo extremamente prazeroso, desenvolver minha sensibilidade para aceitar as proposições do outro. Só que ele começou a me limitar. Precisava que um homem me tirasse para dançar e se isso não acontecia eu acabava não dançando todas as músicas que queria. Quando dava aula com parceiros homens, eles sempre acabavam falando mais, tendo mais espaço para explicarem os movimentos.

 

Eu sei que existe uma esfera onde precisei ir ganhando confiança na minha capacidade enquanto professora e dançarina nessa área. Só que tudo isso fica muito (mas muitoooo) mais difícil quando há um sistema inteiro reforçando e reiterando a figura masculina. Os homens são mais capazes, os que devem ser mencionados nas divulgações, os que de fato tem o “conhecimento” da dança, ou seja, a condução. Sem contar as situações de assédio que já passei, por exemplo, quando um parceiro passou a mão em meu peito durante a dança intencionalmente. “Brincadeiras” foi a resposta que me deram quando fui reclamar na época para o diretor da companhia que dançava.

São inúmeras situações de violência e controle que passamos nessa prática como ela está instaurada. Mesmo depois de já estar há anos nesse exercício de me colocar como professora e dançarina independente de alguma figura masculina, facilmente sou chipada com algum parceiro que estou dançando na época. Não sou mais a Paola e sim a parceira de fulano.

Então, depois de anos vivenciando essas experiências passei a não sair mais para dançar. Não tinha percebido que não estava mais tendo prazer em dançar socialmente, e que a dança tinha passado a ser apenas um lugar de investigação. Isso foi incrível por um lado, porque nunca desisti da dança de salão, insisti, segui experimentando e acreditando que era possível fazer algo diferente. No início era bem solitário esse caminho, eu tinha um excelente parceiro que me possibilitava em sala de ensaio testar várias coisas, mas ele não tinha as mesmas angústias que eu. Não teria como ter, nossos lugares promoviam vivências diferentes.

Eai vem 2016, eita ano borbulhante, conheci a Carol (Polezi citada em vários textos aqui do blog) ela me disse que o que eu tinha escrito era muito importante, e que ela estava querendo pensar diferente assim como eu. Esse encontro me fez ver que era possível. Eu precisava encontrar outras mulheres, precisava assumir cada vez mais esse caminho, não tinha mais volta. Foi quando percebei que precisava chamar minhas colegas de Porto Alegre para conversar sobre ser mulher na dança de salão. Tudo começou a tomar uma proporção de vida tão grande, que me senti convocada a mediar esses processos e seguir provocando conversas sobre a dança de salão. Aí veio muitas outras mulheres que me inspiram Ilana, Laura, Anna, Fernanda, Kelly, Diana, Debora, Lidiane, Brigitte, Tati,… todas nós querendo repensar o que estava acontecendo nessa prática. Todas nós tínhamos histórias parecidas, por vezes, havíamos desconfiado do nosso próprio potencial. Juntas compreendemos que éramos mais fortes e que caminhos outros para essa prática já eram possíveis.

Bom chegamos então na nossa aula-baile de dança de salão contemporânea. É nesse espaço que hoje em parceria com a Brigitte depositamos os nossos desejos por uma dança de salão que possibilite experiências libertadoras. Uma dança que nos viabilize acessar a nossa sensibilidade, a abertura para o outro, nos permita ser vária-o-i-u-s.

O importante desse espaço é perceber que aprender a dançar pode ser prazeroso, e que para isso eu não preciso ser um papel ou outro. Passamos a nos conectar com as potências de cada corpo, a partir disso ir se comunicando ao mover. Também posso nesse espaço ser desafiado ao desconhecido, provando texturas que não imaginava serem possíveis. Aqui, eu posso estar aberto ao outro, pois primeiramente estou aberta a escutar o meu próprio corpo e a partir disso sensivelmente ir percebendo o mundo ao meu redor de uma maneira diferente.

 

 

É isso a aula-baile, um espaço de encontros. Chegamos percebemos como estamos, e vamos tecendo os passos de dança, brincando de dançar, jogando com os outros. Aceitando e acolhendo os outres e sentindo o dançar acontecer. Juntos. Dançamos e percebemos como é linda essa experiência de conexão com o desconhecido. Depois de vivenciar encontros como a aula-baile e mais um tanto de coisa que essa mulherada tem feito na dança de salão eu descobri que amo sair para dançar.

Percebi que me divirto dançando e que sentia muita falta disso. Amo sair para dançar hoje em dia novamente. Tô felizona com que está acontecendo!

Eu espero que vocês que me leram também possam sentir prazer dançando. Se por acaso pararam de dançar, pensem um pouquinho do porquê isso aconteceu. Quem sabe seja a hora de experimentar outras formas dessa dança de salão?

Quem quiser arriscar um dois para lá dois para cá comigo, chega junto no Espaço Mova, quinzenalmente, aqui no Rio de Janeiro. Seria lindo dançar-conversar!