Um manifesto salivar – desintoxicando os corpos da dança de salão

Bem- Vindos,

Vou convidar vocês para dançar comigo atualizações de pensamento-dança do artigo “Pela urgência do fim da boa dama – os papéis de gênero na dança de salão”. Ou talvez isso seja uma carta, um manifesto, ou um acendedor de fogueira-pensamento, ou nada disso.

Já de antemão oriento que aqueles que têm estômago fraco ou sua masculinidade fragilizada que preparem o saco de vômito, pois não me responsabilizo por náuseas que vocês podem vir a sentir. Vocês sabem, se leram o artigo indicado, que eu trabalho a partir da experiência do sentir, principalmente de dar voz ao corpo em movimento. Venho há alguns anos convocado algumas mortes dentro do cenário da dança de salão. Obviamente são imagéticas, apesar de hoje possuir um devir assassino de querer matar o presidente. e isso não seria metaforicamente.

Falo e escrevo sempre a partir da minha experiência de mulher cis-gênero, branca, classe média e bissexual, isso me auxilia a localizar meus privilégios nessas hierarquias de credibilidade. Porém, já gostaria de dizer que cada categoria dessas não me limita, e que estou me transformando intensamente, provavelmente, já estarei outra quando nos encontramos virtualmente.

Hoje vou falar sobre o processo de construção da performance La Bruja, que talvez alguns de vocês tenham presenciado no Encontro Contemporâneo de Dança de Salão em São Paulo em novembro de 2019. Essa ação visceral, a qual convoco o meu corpo, têm se desdobrado e tomado parte do meu processo de vida. La Bruja, ou Bruxa, é um vômito, um sintoma do corpo orgânico que desesperadamente coloca via boca tudo aquilo que o corpo não consegue digerir. Intoxicação subjetiva-moral de ser uma “boa” dama-mulher.

Todo o processo artístico dessa performance perpassa por como transformar o meu corpo em algo que atravesse, para além dessa matéria que se move com tamanha fluidez e tem suas artimanhas técnicas para sustentar o olhar de outros enquanto danço. Algo que fissure sensorialmente. Não queria causar isso ou aquilo, mas queria promover o sentir.

Vou até aquela reunião de pessoas que testemunham a minha dança e anúncio que irei vomitar. Passo então a babar, esse gesto surgiu em um dia de experimentação quando tentava me aproximar de instintos animais que poderiam ser criados dentro do meu corpo. Imaginei um animal prestes a atacar outro. Faminto. A saliva surgiu naturalmente, se conectando com o impulso de matar para saciar a fome. A fome, o desejo, aquele instinto que nos faz viver para não sermos mortos. Então a saliva é esse excremento inapropriado assim como o sangue, fluídos que nos conectam com nossa animalidade. O corpo não domesticado. figuras monstruosas não humanas. Tudo aquilo que escapa do corpo asséptico.

[Ação em diálogo com o deslocamento feito pela autora Barbara Creed em sua análise sobre os filmes de terror, onde a mulher não é a vítima, mas o monstruoso em si capaz de desafiar o patriarcado. Leitura que além de desdobrar na performance La Bruja também subsidia e inspira a performance-instalação Malditas em parceria com as artistas Débora Pazetto e Kamilla Hoffmann.]

Diga-se de passagem, que todas as vezes que performei ou que La Bruja existiu em carne em mim, eu estava menstruada, porque também compreendi que ela não aparece porque precisa, mas porque ali, algo está morrendo.

Sim. Eu morro. Partes minhas ali morrem. Viro uma lagarta-cobra ao babar e desfrutar do impulso de desejo que há em mim. Um devorar-se de si. Me masturbo em homenagem a todas as histéricas que habitaram nossa sociedade patriarcal. Toda a angústia, a culpa, o pudor, a depressão dos corpos femininos vazando em matéria. Há um deleite em virar bicha-mostra e ver a Paola-Humana se desfazendo aos olhos dos outros. Essa monstra agora pode caçar. Arrancar a cabeça de seus opressores. É o desejo assassino que emana.

Percebi que educar as mulheres a serem boas damas é enquadrar seus corpos em uma lógica de que precisam se comportar, e necessitam serem salvas sempre pela figura masculina, oh pai, oh marido, oh parceiro de dança…. Você pode dançar sensual, mas cuidado com que veste nas ruas. Você pode transar, mas cuidado, se dê o respeito, se não vai ganhar fama de galinha. Valorize aqueles homens que te tratam com respeito. Ah como é bom ter um parceiro que me protege. Por aí vai um monte de absurdos que vai sendo injetados em nossos corpos, assim como os agrotóxicos que lançam de maneira autorizada sobre os alimentos que consumimos.

Tudo isso vai calcificando uma dependência subjetiva como se precisamos deles. Esse estado vai te paralisando, o medo congela o corpo. Isso nos torna presa fácil. Quanto mais na minha andava pelas ruas, mais recebia olhares invasivos de homens nas ruas. Quanto mais gentil e calada eu fosse, mais abusada eu era. A dama é esse objeto de desejo que precisa ser gentilmente cuidado. Isso também carrega uma sombra que é o fato dessa mulher ser coisa, e com isso se pode fazer o que se quiser. Afinal há sempre um dono homem por aí, mesmo que nem a conheça, os instintos masculinos falam mais forte. Foda-se se ela está bêbada, se ela é uma criança, se ela nem me conhece, todas elas estão abaixo de mim o ser homem-cavalheiro-soberano.

Paola, por favor, sim é verdade que isso acontece muito. Mas, veja bem somos todos homens que estamos nos desconstruindo diariamente. Estamos aqui em busca de práticas mais plurais de dançar.

Verdade. Estamos todos aqui buscando caminhos, mas te pergunto porque você homem insiste tanto em falar, porque você fura a fila de inscrição na frente das mulheres, porque você pega a palavra sempre, sempre, sempre,… Difícil assumir o lugar de só escutar né. Chato ter que lidar com seu lado escroto. Assumir que você tá, vira e mexe, se agarrando no seu privilégio de ter sempre a palavra. Então, companheiros, para educarmos corpos para uma dança onde a desigualdade entre os gêneros desapareça não basta apenas darmos liberdade e emancipação para as mulheres. Tratasse também de ensinarmos aos homens que vocês vão ter que perder poder. É necessário perder parceiros.

Nesse sentido, provoco meus companheiros de diálogo a repensarem seus textos e falas. Eu pouco li textos testemunhos de homens dizendo o quanto se responsabilizam por ações machistas, só vejo discursos de afirmação dos novos “feministos”. Não vejo vulnerabilidade sendo trazido em relatos, o quanto o sistema de condução oprime os corpos masculinos. Porém vejo muitos textos de autores homens discutindo sobre os conceitos e as abordagens na dança de salão na contemporaneidade, todos querendo assegurar qual é o jeito mais adequado. Todos ainda muito centrados no pensamento racional, não vejo nenhum texto mundano vindo dessas figuras. A lógica de pensar e colocar as ideias ainda permanece sendo pautada por uma escritura do homem racional.

Fartas estamos, não sou só eu. Exercitem mais suas escutas e tentem não trazer o pensamento de cara. Quem sabe seja a hora de vocês se conectarem com emoções ao invés das reflexões, vivam o espaço íntimo. Chamem a sombra para dançar, sejam conduzidos vocês pelo cavalheiro que há em cada um. Depois exercitem criativamente possibilidades de desintoxicação, descongelamento de armaduras, de esvaziamentos para que assim outras coisas possam surgir.

Deixem o espaço público, nesse primeiro momento, para ser ocupado por corpos que sabem muito bem o que é vivenciar o silêncio. Talvez seja isso que estejamos precisando, por hora.

Manas, eai onde estão as monstras? O que vocês precisam babar? Convido-as para separar um momento do seu dia hoje e experimentarem esse exercício. Precisa ter coragem, mas garanto que no final pode ser interessante. Se posicione de um jeito confortável, feche os olhos, assegure que sua roupa não está pressionando a sua barriga. Respire e expire profundamente. Pense em todas as situações de opressão que você vivenciou na dança de salão-vida. A cada memória amarga vá produzindo e acumulando saliva dentro da boca. Quando estiver pronta, relaxe a mandíbula e se permita escorrer. Deixe esse líquido cair, pode ser que ele deslize sobre seu corpo ou cai direto no chão. Não se importe com nada, apenas sinta. Se permita. Babe o quanto achar necessário. Depois se sentir vontade em um ímpeto dance aquilo que vier desse encontro. Viva a experiência selvagem de se conectar com um fluído não domesticado sendo cuspido para fora, algo seu. Um protesto salivar.

Caso você seja trans ou tenha uma experiência desviante da heteronormatividade você pode experimentar ambos os processos ou ainda te sugiro que você possa inventar outros. Se criar algo, compartilha com a gente porque estamos sempre precisando vivenciar oportunidades de desterritorializar a cisheteronormatividade diariamente.

Nossa Paola, mas o que isso tem a ver com dança de salão. Primeiro porque quero e meu desejo é o guia desses textos.  Então eu sempre pesquisei a dança de salão como caminho de investigação artística, então sim, o processo como componho perpassa princípios que desenvolvi a partir da prática de dança a dois. Sejam por princípios práticos como a improvisação durante a ação ou o olhar para os parceires de cena como iguais e influenciadores do meu mover sejam eles objetos ou pessoas. Ou pelo contexto que dispara a construção performática, como é o caso dessa ação que quer vomitar a dama. Foi essa prática que domesticou de maneira eficiente a minha performance de feminilidade.  No fim das contas o que percebi depois desses anos é que essa mulher-dama está-estava incrustada em várias esferas da minha vida. Então há esse exercício de reinvenção de si nesse processo. Lembrando que a performance enquanto campo de ação é diretamente conectada e influenciada por processos educacionais, sociais e artísticos. Então ser e estar também é fazer arte, porque arte e vida é uma coisa só. Eu que escrevo aqui, babo na performance, sou professora de dança de salão, transo, como, adoeço, danço, e é o mesmo corpo em todas as ações.

Por fim, eu acredito ser meu papel de artista e facilitadora de dança de salão convocar delírios e a imaginação para compor outros cenários para essa dança. A minha experiência não permite doses homeopáticas de reinvenção, ainda mais quando estou falando com pessoas comprometidas em formar praticantes nessa área. Para mim, a dança de salão, ou quem sabe a dança des-salão, uma dança de ação contrária que quer sair dos salões colonizados e ocupar outros espaços, quem sabe a rua.

[Delírio faiscante que surgiu depois da provocação da Nadiana ao trazer a questão colonial dessa prática, na conversa do grupo que tem se encontrado semanalmente para pensar as abordagens contemporâneas na dança de salão]

Esse movimento só pode acontecer se for convocado por uma multidão de monstras. Quando convocarmos as bruxas, os piratas, as putas, as possuídas, as histéricas, as bichas,…………… e tudo aquile que for desviante para ocupar a pista de dança. Caso contrário seremos novamente lançados a territórios estigmatizados.

Então, para mim a dança de salão e pode ser implodida e reinventada quantas vezes desejarmos e tivermos coragem de faze-la. Alguém aí disposto a dançar?

 

 

5 thoughts on “Um manifesto salivar – desintoxicando os corpos da dança de salão

  1. Querida, li seus últimos textos nesse site e senti vontade de comentar, lhe deixar um retorno. Porque a gente se expressa no mundo como quem joga sementes e nunca sabemos onde elas vão parar e como irão germinar. E, nesse caso, seu trabalho veio parar longe: nesse lugar de fala supostamente masculino (de todo modo, efetivamente masculino desde o ponto de vista social), e heteressosexual até onde eu me conheça. Também em um lugar completamente alheio ao mundo da dança, amadora ou profissional: minha relação com a música sempre foi a de um ouvinte atravessado e apaixonado, mas inerte – um dia li que cientistas teriam descoberto um gene do ritmo, o que supostamente explicaria porque pessoas como eu não conseguiriam dar dois passos pra lá, dois pra cá.

    Mas me deparei por acaso com seus vídeos e me encantaram. Seu trabalho ressoa em mim de uma forma bonita e acalentadora. Acho seus vídeos, suas ideias e sua proposta belíssimos. Não lembro de ter visto algo assim em outra parte, algo que a um só tempo incentive a mulher na condução de novos passos e, por consequência, propicie que o homem se quebre um pouco por dentro. E tudo de forma delicada, bonita. É que embora não dance, sempre me pareceu que a dança seria uma metáfora do encontro amoroso nesse nosso mundo normativo, por todas as razões que você aponta tão bem. E quando vi seu trabalho achei genial, achei que você subvertia incidindo onde nenhum texto chegaria tão diretamente: no corpo, no ritmo, no afeto, nos movimentos que também performam quem somos. Você chegou a ir para uma sessão de análise minha então, porque sendo eu como na música de Caetano “este macaco complexo/este sexo equívoco/este mico-leão”, sempre sofri muito com os papéis de gênero dessa peça escrita por ninguém que insistimos em atuar. Nos relacionamentos, no início da vida amorosa; olhando retrospectivamente, em tudo. Então se a dança era metáfora da normatividade, seu trabalho se tornou metáfora do que os novos relacionamentos poderão ser. Se sua dança é possível, relações mais felizes também serão.

    Me inclino a achar que não se trata de um jogo de ganha e perde, em que para que um lado multiplique suas possibilidades de vida, o outro deva reduzir (desde que a destruição seja, como queria Nietzsche, um ato de criação). A mim parece que seu trabalho é uma prova de que a multiplicação de possibilidades é uma conquista mútua. Exemplo de que quando você, por suas próprias angústias, desafia o muro que lhe impuseram, também destrói o que me fazia sofrer: porque é o mesmo muro, apenas que visto por lados diferentes.

    Mas talvez eu esteja errado, porque, como já me disseram algumas vezes, não há muitos homens reclamando. Nem fazendo algo. Não parecem haver muitos angustiados ou otimistas com as mudanças que lhe caem no colo. Isto nos deixa a alguns em posição infantil: “como não percebem que também sofremos?”, “como não percebem que as mulheres também reproduzem machismo, às vezes de modo cruel?”. Eu me vejo facilmente questionando isto anos atrás, como se a culpa do mundo fosse daquelas que com seus sofrimentos e prioridades fazem algo. Talvez por inveja de não ter espaços tão bem construídos. não sei. Mas sim, eu efetivamente diria coisas assim anos atrás.

    Hoje só tenho a agradecer.

    E se você fosse da minha cidade, adoraria fazer aulas, levaria minha namorada que tem aguentado minhas neuras na vida e que também admira seu trabalho. Mesmo tendo certeza que jamais daria certo. Por causa, claro, dos genes que mencionei no início. Da falta deles.

    Ou talvez percebesse que o problema nunca foi genético.

    um abraço,
    e
    gratidão.

    • Tiago!
      Uau que relato…. Obrigada por ter tido coragem de partilhar comigo as tuas impressões, experiências e tudo aquilo que no momento da partilha das palavras tu eras. Eu sempre acreditei na importância do diálogo. Defendo bravamente e acredito no poder de trasnformação através da dança e do afeto.
      Uma ação sensível que nos proporciona tomar consciência de modos de agir, percepções limitantes e inclusive nos mostra nossas sombras. Assim, conseguimos tomar consciência, refletir e se responsabilizar por aquilo que nos cabe.
      Sinto que há um longo caminho pela frente, mas também percebo as fissuras mínimas se instaurando.
      É necessário coragem camarada para abrir mão de certas coisas, principalmente sendo homem. Há tanto a desintoxicar nessas experiências subjetivas.
      Bueno, fico feliz em ser lida e tão sensivelmente provocado pensamentos. Acredito que vida e arte fluem livres pelos nossos corpos. Sua dança já começou, saiba disso.
      Se ela seguires pelos caminhos da intuição e da coragem, sem medo de se reinventar, muito provavlemnte te nutriram danças-relações mais saudáveis.
      Dançar é singular, assim como os corpos, todos somos pontentes porque estamos vivos. As folhas das árvores dançam, você também. Basta só ter abertura para deixar a dança dançar você!

  2. Ei Paola, meu nome é nadiana, com “a” no final. gosto de dizer porque é junção dos nomes das minhas avós e uma delas se chamava Ana, gosto do artigo “a” e gosto quando mulheres se juntam. obrigada por cola junto na ideia
    enquanto te escutava salivei um misto de gostos – amargo, azedo, cachaça com mel bochechada, queimadura de café quente, aquela cegueira quando o sol inunda e a retina não da conta, aquele arrepio de fio quando a pele assusta.. gostos que, mesmo na repetição, parecem inéditos
    um tanto por ter transado com seus desejos, outro tanto por ter querido babar veneno pra aplicá-lo. sem pesar, ao contrário, como uma excepcional bruxa da qual me deserdaram
    teu canto remexe e estas vísceras já expostas clamam por contaminações, sabe como é
    parece que na idade média (vezes perpetuada hoje) os mesmos homens que matavam bruxas faziam crer que a menstruação era sangue venenoso. desde que escutei isso me perturbo com a desolação de terem deixado de acreditar. ou ainda, quem nos desapropriou desse potencial?
    já em comunas canibais, quando inimigos são mortos, a carne é devorada para se nutrir da “força” do inimigo – tenho tido essa preocupação ecológica caso matemos o presidente, o de não restar lixo orgânico pra terra reciclar
    meu tormento atento é então o de querer sangrar junto para envenenar o levante de bacurau
    quando troco suor (baba) na dança a duas, lembro disso
    aqui o fiz

    • Uauuuuuu bruxaria e sabedoria sendo tramada com esse encontro! Já corri e fui editar seu nome, honrar elas que te guiaram até aqui. Celebro tuas palavras como quem degusta uma grande poção misteriosa e encantadora. Sedenta sempre por tramar com outras bruxas, pois bem sei que só assim conseguiremos ter forças para alcançar planos maiores. A rebelião urge. Minha saliva escorre de encontro a tua, os nossos sangues clamam por revolta.
      Já desde o primeiro dia que te ouvi falar sinto que tua bruxaria me convoca e me desestabiliza. Gosto de saber que haverá feitiços-provocações para auxiliar na dança-vida!
      Obrigada!!!!!

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