Dançar a dois em tempos de pandemia? A experiência do vazio

29 de abril de 2020,

Processed with VSCO with  preset

Foto de Luiz Felipe Ferreira

Uma data especial a todos aqueles que se sentem atravessados pela arte do dançar. Hoje é o dia internacional da dança, e eu já escrevi algumas vezes sobre essa data. Sempre reiterei a importância de valorizarmos essa prática, e muito já discuti sobre as questões políticas que atravessam essa área. Contudo, em tempos de pandemia, nunca havia passado pela minha experiência corpórea, nesses quase vinte e nove anos, a impossibilidade de contato com o outro.

A crise em que vivemos traz como medida de proteção e salvamento o não tocar, a ação de isolar nossos corpos de estarem se contagiando. Não quero que pareça que não estou de acordo com isso, jamais, acho que é o devemos fazer no momento. Só que o que quero falar é o tamanho do vazio, o qual eu nem sei transpor em palavras que estou vivenciando nesse momento. Eu, uma pesquisadora e artista especialista na arte de se relacionar dançando, sendo lançado ao mar de incertezas promovido pela experiência de não poder se relacionar. Sim, acima de tudo minhas pesquisas na dança sempre perpassam pelo tema da relação. Isso tem muita conexão com o modo como me reinvento e aprendo sobre mim diariamente, sempre através do olhar do outro. O outro sempre foi essa potência de cores que ao entrar em contato com as minhas forças e desejos durante o dançar nos permitia acessar territórios desconhecidos.

Isso acontece exclusivamente pelo ato de contágio, se não formos afetados, se não nos permitirmos ser infectados-atravessados pelo outro a dança a dois não acontece. Falava em meu tcc, de que o dançar a dois era a possibilidade de experimentar um ser a dois. Algo que extrapola a experiência individual dos corpos que dançam junto, e se estabelece a partir do encontro. Acontecimento que atravessa ambos e não pertence a ninguém, e que se dissipa quando os corpos encerram a dança. Talvez no contexto que vivemos o covid-19 seja esse ser a dois, a doença, um encontro entre corpo orgânico e o vírus. A doença que surge na relação. Por isso, mais do que nunca, pensar sobre como estabelecemos nossas relações com o outro se faz gritar para mim nesse contexto. O adoecer ao entrarmos em contato, quantas pessoas aqui já vivenciaram processos abusivos de se relacionar. O quanto que já falamos na dança de salão que o sistema de condução pode ser autoritário, abusivo entre os papéis e pode causar danos profundos nas experiências subjetivas das pessoas. Corpos cheio de cicatrizes e dores. Inclusive é o que mais já cruzei por aí,  pode incluir nessa conta o meu tá.

Nesse sentido, sem querer fazer panoramas a longo prazo, eu hoje deliro em como reinventar o dançar a dois em tempos de pandemia. Primeiro ponto se permitir sentir, e nada mais, lançar-se ao desconhecido do vazio no corpo. É isso. Não é fácil. Eu sou uma que resisto intensamente a experiência de sentir, já estou sempre querendo criar, reinventar, criticar, analisar, blá blá blá… Então para dançar a dois em meio a pandemia é necessário viver o vazio da incerteza, o vazio onde só a sua pele está. Na permanência desse estado, caso você consiga, talvez surjam as faíscas que nos compõem, vemos aquilo que nos colore das diversas formas, aquilo que queremos colocar embaixo do tapete. As sombras dançando em nossa frente como nunca antes, a finitude nos chamando para dançar abraçada com ela. É isso. Dançaremos na difícil, mas talvez profunda descoberta de outro dançar, o dançardesi.

O segundo desafio para dançar a dois, se permitir ser. Expandir aquilo que se é, deixar as expectativas e os julgamentos de lado, estamos isolados nas nossas casas mesmo. É hora de se conectar com aquilo que te move na urgência, aquilo que você deve fazer não entra aqui. Só aquilo que teu corpo te grita e diz: eu preciso que você me alongue aqui, me torça, me faça respirar profundamente, me faça sentir o chão e a base que é entregar o peso para a terra. Eu preciso de ar, água, força, base,…Eu não tenho dúvida que seu corpo deve estar te dizendo algo agora, talvez esteja até gritando com você. Escute. O que você está sentindo fisicamente nesse momento? Como está seu corpo? Sem racionalizar, responda precisamente.

Por fim, terceiro passo talvez esse é o mais sonhador de todos, mas isso é importante porque sem imaginação não sobrevivemos. Desperte a criança que está em você, chama ela para brincar. Coloque uma música que te mobiliza, ou se lance ao silêncio. Faça o exercício de olhar para o seu quarto, sala, onde quer que você esteja através dos olhos dela. Descubra aquilo que você nunca viu. Veja com o olhar de quem brinca de descobrir coisas e não sabe o que se é, ou melhor pouco se importa com que se é. Crie você o dançar e explore as possibilidades inimagináveis, navegue em mares desconhecidos, converse com seus fantasmas, seja outr@s,… Lembra de quando você era criança, aposto que não precisava muito para te chamar para brincar.

Talvez depois de tudo isso, quando em um futuro, possamos celebrar o contágio novamente. Esse dançar a dois em tempos de pandemia tenha nos ensinado a respeitar a nós. Estaremos celebrando e felizes por poder estar em contato, pois sabemos como é difícil estar sempre só. Todavia, talvez tenhamos descoberto que para nos colocarmos para dançar é preciso ser você em potência e que o outro por mais que te mobilize e te convoque aprendizados, ele jamais te arrasta. Ele jamais pode te diminuir. Ele jamais é mais interessante que você e sua vida. O outro existe para nos fazer crescer e descobrir coisas, mas nunca para te dizimar.

Estou com saudades imensas de compartilhar abraços dançandos, ministrar vivências contagiosas, rir dos caminhos incertos que descubro dançando com vocês. Meus desejos e afagos virtuais a todos que me acompanham. Feliz dia internacional da dança de si amores, e que possamos passar por isso. Tô com um aperto no coração, mas também me permitindo sentir….

20200408_125556