Pensamento-dança os quais ecoam hoje sobre Condução Compartilhada

Oficina Dança de Salão Queer

Vivência de Dança de Salão Queer na Semana da Diversidade Sexual e de na FABICO. Foto: Yamini Benites.

Ontem estava participando de um evento sobre condução compartilhada no forró. Confesso que fico extremamente feliz e grata por estar podendo vivenciar essas ações no espaço da dança de salão. São anos pesquisando, investigando e propondo ações para reinventar essa prática, e perceber que há um movimento acontecendo, é algo que me deixa muito feliz. Essas ações não estão ocorrendo apenas nos espaços (in)visíveis, pensando na atuação das mulheres que normalmente acabam sendo invisibilizadas pela dança de salão majoritariamente masculina. A condução compartilhada pode ser tema de um evento de forró, as discussões sobre gênero são um dado material que atravessa os corpos que dançam.  Já que é necessário que se dialogue com as temáticas do nosso tempo, a dança de salão precisa acompanhar os fluxos da contemporaneidade.

Eu sempre me lembro o quanto me sentia sozinha quando comecei a trazer essas pautas para os espaços que frequentava, hoje me sinto acolhida por muitas outras colegas, e juntas somos mais fortes. Assim me sinto responsável e implicada a germinar faíscas de coragem para que outras mulheres possam desdobrar suas práticas a partir de um olhar crítico. Então é lindo ver como ontem os olhares de muitas mulheres brilhavam com as novas possibilidades de inserção e de poder vivenciar essa prática sem ter que se ajustar a uma ideal de dama inalcançável. Assim como vejo os ombros de muitos homens relaxando ao descobrirem que ainda que timidamente é possível acessar um corpo sensível, delicado e sutil. A dança enquanto função social, redescobrindo outras formas de estar em relação, buscando momentos de equidade e pluralidade. Muito bonito mesmo ver esses encontros.

Porém, algo como profissional me desperta uma luzinha de alerta. (Já aviso que não quero parecer possessiva em relação a essa temática porque acredito mesmo que essas práticas precisam ser disseminadas e possuir abordagens plurais)

Ontem ouvindo as aulas dos outros professora/es pensei que talvez ainda haja uma certa confusão no que se refere essa noção de condução compartilhada, e principalmente porque ela surge. A abordagem de condução compartilhada na dança de salão, é uma proposta prática que parte de implicações políticas muito precisas. Quando ouvi esse termo pela primeira vez foi a partir das provocações da professora Carolina Polezi de Campinas. Na época em 2016, percebi que a proposta da Carol dialogava com as implicações que eu também estava desenvolvendo ao pensar uma Dança de Salão Queer, as quais tinha duas provocações muito precisas: os papéis de gênero na dança de salão e a heterossexualidade como norma.

Essas duas pautas são decisivas para compreendermos porque se instaura essa proposta prática na dança de salão, porque ela é uma tentativa de subverter esses dois pontos. Então, sim a condução compartilhada é uma proposição para além do forró, porém ela não é apenas uma linguagem a mais na dança de salão. Ela não é uma forma dentro de todas as outras formas de dança, ela quer corroer esses padrões que estão colados nessas figuras na dança chamados de cavalheiros-damas. A condução compartilhada não desenvolve seus princípios a partir desses papéis, ela pressupõe a construção de corpos para a dança de salão que não estejam limitados a funções estereotipadas de categorias generalistas, e limitadas, do que é ser homem e mulher na nossa sociedade.

Além disso, ela estimula novas experiências, possibilitando através dessa vivência a exploração de outras formas de se dançar, ao incentivar que mulheres conduzam, homens sejam conduzidos, a buscar movimentos que todos possam ser criativos, a desconstruir essa lógica sensual padronizada na dança, a buscar um cuidado com os corpos. E isso não é algo que se dá espontaneamente, não é algo que ocorra sem que seja estimulado pelos profissionais que estão a frente desse processo.

Condução Compartilhada, então não é uma forma de dança apenas é muito mais do que isso é uma proposta de vida. Esse é um ponto caro para mim e para todas as outras mulheres e corpos que não se identificam com a norma heterossexual. Isso é muito importante para nós, porque infelizmente é nos nossos corpos que o sistema tradicional de condução e de dança de salão com seus papéis deixa as suas marcas, as quais são muitas vezes bastante doloridas. Sim galera, é a partir das experiências de violência que sofremos que essas propostas surgiram. É a partir do silêncio que fomos obrigados a fazer: seja na dança ao ter que apenas seguir; na sala de aula ao não ter espaço de fala porque nossos parceiros homens não permitiam; nos eventos que não divulgavam os nossos nomes; nos bailes em que não fomos tiradas para dançar. Na insegurança que nos foi gerada e no descrédito da nossa competência profissional simplesmente por sermos mulheres. Sem contar nos pontos subjetivos ao sermos massacradas para sermos bonitas, sensuais, gentis, educadas o tempo inteiro. Assim gerando tamanha disfunção que estamos sempre competindo umas com as outras, querendo nos ajustarmos a esses padrões.

Então condução compartilhada é prática de vida, uma vida que pulsa com força e quer romper desesperadamente essas condutas tóxicas e que nos tornam enrijecidos, enfraquecidos e submissos a tudo isso. Infelizmente meninos vocês estão em um outro lugar nesse processo, o que não quer dizer que essa loucura toda não seja enfraquecedora e dolorida aos corpos de vocês. Não há dúvida que isso os atinge também. Porém há uma posição diferente no jogo e necessário reconhecer esse lugar antes de qualquer outro passo.

Assim, minha dica para qualquer professora/es que estejam pensando essas práticas na contemporaneidade. Primeiro é precisam começar a romper inicialmente com os próprios privilégios e categorias dominantes que compõem a sua dança, a sua forma de dar aula, a maneira como se relacionam com o seu parceira/os. A mudança do discurso não é suficiente se a nossa prática seguir sendo hierárquica, se as piadas seguirem constrangendo os corpos nas suas diferenças, se a dança seguir sendo a mesma. Se seu corpo na dança e na vida não mudou ao começar a pensar sobre condução compartilhada, então há algo que precisa ser revisto.

Segundo é preciso conversar e dançar com outras pessoas que estão fazendo isso, esse é um movimento em rede, em coletivo. Escute as outras histórias, principalmente de mulheres, perceba os corpos diferentes e valorize isso.

Terceiro vamos seguir pensando e provocando a discussão, ela não encerra por aqui porque é vida, né galera. Enquanto seguirmos respirando a condução compartilhada segue sendo oxigenada, o processo de reinvenção é diário 😉

Um abraço bem delícia para os que leram até o final!

Roda de Conversa no Congresso Contemporâneo de Dança de Salão em BH. Foto Gilberto Goulart

Eu, Carolina Polezi, Marina Coura, Laura James, Débora Pazetto e Fernanda Conde. Uma mulherada de peso que pensa e vive condução compartilhada! Foto: Gilberto Goulart.