A morte da tradição, mas não da dança de salão

Quando dançamos temos a possibilidade de criar outras formas de se relacionar com o mundo, com o outro com o seu próprio corpo. A dança a dois pode ser campo político para perceber a potência que os gestos podem ter na nossa existência. Hoje escrevo diferente porque em parte fui atravessada por Ilana, Guilherme, Carol, Carlos, Kelly, Débora, Camila,… Estava lá disponível para acolher o outro, e perceber o que juntxs poderíamos descobrir durante esses encontros dançantes ao longo do final de semana. Respirações que se sincronizam, toques que deslizam, seguram, escorregam e pressionam. Danças emergentes de outro lugar, criação de pequenas ficções a dois. Quando o dançar a dois é pautado pela escuta do outro e o desejo de se estar juntxs outros mundos começam a ser construídos. Através dessas trocas ao dançar, nesses processos de desconstrução, é que podemos tornar uma prática que aparentemente está fixada em estruturas normativas e padrões de gênero em algo que subverta e reinvente outros modos de existir.

Contudo, para que isso possa acontecer, para que eu possa estar ali aberta ao acaso, ao outro e ao encontro, é necessário horizontalizar. Se colocar em movimento, ir ao chão, desapegar, desprender, desequilibrar, desestabilizar, talvez até cair. Horizontalizar a dança de salão, os espaços onde ela existe, as formas de acessar e compartilhar esses saberes, e os modos de dançar.

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Eu e Ilana – Improvisando e descobrindo formas horizontalizadas de dançar juntas

Pensar em uma dança onde a proposição de movimento seja fluída, e onde se tenha como desejo principal uma tentativa de coexistir dançando. Uma dança que seja plural, acolhedora, sob vias de cuidado consigo e com outro, mas que ao mesmo tempo tenha engajamento, fricções e desafios é algo que tem me mobilizado enquanto criadora-educadora de dança de salão. Não é uma tarefa fácil, é exercício diário de desapego do “eu”, do querer fazer a todo tempo, pois é acreditar na possibilidade de um outro eu, algo que é coletivo. Algo que está no cerne do encontro, no entre os corpos e que vai amadurecendo a cada nova dança.

Nesse sentido, destaco a importância do Baile Contemporâneo de Dança de Salão, organizado pela Companhia Dois Rumos de SP, o qual vem tentando articular e potencializar um espaço onde a prática social do baile possa ser horizontalizada. Sinto uma alegria enorme de chegar em um espaço de dança de salão onde haja homens dançando com homens, mulheres com mulheres, propostas de movimento conhecidas da dança de salão e/ou experimentações com outras danças. Tudo em um único espaço, acontecendo sob o mesmo lugar e de maneira fluída. Há mais de um ano a companhia tem desenvolvido essa atividade em São Paulo, e com isso tem articulado um movimento intenso de pessoas interessadas em repensar as formas de dançar a dois.

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Final de Baile da Dois Rumos, junho de 2018.

Tenho que destacar a quadrilha diferentona que rolou, afinal era Arraial e nada mais justo do que ter aquele bom momento de dança coletiva. Além de poder compartilhar olhares e sorrisos com todxs os presentes, a melhor parte era ver o cuidado da organização em reinventar essa forma de dançar. O discurso muda, atualiza e faz englobar a todxs. Vemos ainda um “medo” quando se falam nessas propostas contemporâneas de fazer-pensar dança de salão, como se elas fossem aniquilar uma tradição. Eai a gente vê a quadrilha rolando, sem papéis de gênero definidos, e o principal, que é todo mundo dançar junto, acontecendo em máxima potência. A mudança, o desconhecido pode até gerar um certo receio no primeiro momento, mas não podemos mais continuar insistindo em “tradições” que oprimem e marginalizam. A dança de salão vai continuar existindo, só não precisa ser da maneira normativa que se encontra.

Só não vale manter o tradicional e vir com o slogan que todos podem dançar e ser feliz, porque eu e várias outras pessoas não nos sentimos bem nesse espaço. E não vamos nos retirar porque queremos dançar dança de salão, e já estamos criando e reinventando espaços, redes, danças, encontros para dar vazão a uma dança de salão feminista, LGBTQ+, queer,….

Voltando a horizontalidade, além da Dois Rumos pude conhecer pessoas interessantes que estão sendo protagonistas desse movimento por lá.  A fantástica Ilana Majerowicz que vem buscando pensar em propostas de ensino da dança de salão contemporânea que sejam processos de experiência para além da ideia do compartilhar algo de maneira vertical. O Guilherme Akido que está começando a articular esse processo em Santo André, a Joana de Barros que está iniciando uma pesquisa acadêmica sobre o tema, e mais um monte de gente iluminada que cruzei nesse final de semana. Pude também reencontrar a minha querida amiga e parceria Carolina Polezi. Nossa distância não está impedindo que os nossos improvisos sejam vivos, além é claro das nossas conversas instigadoras que já são uma marca desse encontro.

Ver outras pessoas trilhando caminhos diferentes dentro dessa área me mobiliza, e faz crer que estamos amadurecendo essa rede de compartilhamentos via dança-conversa-reflexão pelo Brasil. Espero que possamos cada vez mais ampliar os espaços, conversas e danças por aí!

Finalizo esse texto me perguntando o que poderíamos fazer para deixar essa prática de dança de salão expandir para outros espaços para além desses lugares e pessoas que já frequentam o universo da dança. Afinal não são todos que tem o privilégio como eu de poder estar pesquisando esse universo. Como podemos estar sempre trabalhando esse processo de horizontalidade nas nossas danças? Como criar propostas artísticas-educadoras sob esse princípio? Até que ponto estamos dispostos a chegar, será que queremos chegar em algum lugar?

Para quem quiser conferir: Improviso Carolina Polezi e Paola Vasconcelos

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