Na terra dos “grandes mestres” há resistência e reinvenção

Ocorreu nesse final de semana nos dias 26 e 27 de junho de 2018, a primeira oficina de dança de salão contemporânea no Rio de Janeiro. O espaço Mova promoveu a vinda do professor Samuel Samways (BH) para realizar uma oficina durante a tarde, e no domingo aconteceu o primeiro Baile Experimental no espaço.

Durante essa minha experiência de viver em terras cariocas, território onde a maioria dos “grandes mestres” surgiu e consolidou o seu trabalho. Estou aqui falando especificamente de trajetórias na dança de salão que conservam elementos pautados em uma tradição centrada na figura do homem, sendo ele o protagonista da dança, refletindo uma cultura machista e heteronormativa. Formato esse de pensar a dança de salão o qual muita vezes direciona o papel da mulher apenas como algo que atribui  beleza , não cabendo a ela participar das decisões dos passos e podendo apenas se expressar criativamente quando isso não interferir na movimentação masculina. Estou apenas resumindo essa condutas da dança de salão tradicional, mas para mais informações recomendo a leitura de outros post do blog e do artigo publicado por Carolina Polezi e Paola Vasconcelos em 2017

Quando me utilizo das aspas ao referenciar os grandes mestres, é justamente por ficar incomodada com a centralidade masculina presente nos discursos e práticas desses profissionais. Os quais em sua maioria traçaram suas trajetórias fortalecendo uma prática que além de ser opressiva, foi construída a partir da experiência de muitas mulheres as quais são pouco reconhecidas e legitimadas nesse espaço. Essas referências na dança de salão são responsáveis por formar uma grande quantidade de profissionais dessa área. Contudo, seus fazeres se apresentam intocáveis e inquestionáveis, ou seja, não há espaço de diálogo para se pensar em reformulações de ideias e práticas. O que de fato não me surpreende, dado o eminente espaço privilegiado que ocupam.

Nesse sentido, o que havia percebido do pouco tempo em que habito esse território, é o quanto o espaço do Rio de Janeiro se mantem fechado e conservador as novas propostas da dança de salão. A sensação é que a dança de salão em si é uma realidade instaurada, uma entidade maior, a qual ninguém poderá questionar e problematizar os seus fazeres.

Li a algum tempo um texto que questiona justamente o que seria a realidade, o quanto estamos muitas vezes conectados a uma ideia de que seria algo pré-estabelecido e dado em nossas vidas. O autor Duarte Junior (1994) traz que poderíamos pensar na realidade como aquilo que é dado como inerente ao existir, ou seja, o real é o terreno firme que sustentaria o nosso cotidiano. No primeiro momento já para desconstruir essa proposta de apenas uma realidade é importante destacar a pluralidade dessas realidades, visto que o mundo se revela de um jeito ou de outro conforme a nossa intenção. Outro elemento importante de reflexão é que a realidade não é instaurada e pronta, muito pelo contrário, nós humanos seriamos os edificadores dessa realidade, pois estaríamos construindo o mundo. Contudo como traz João Francisco Duarte Junior (1994) o paradoxo está nesse conflito de não nos sentirmos apropriados desse lugar de construtores, e sim submetidos a uma realidade conduzida por um sistema de forças naturais e sociais. Dessa forma, é relevante pensarmos que a realidade de uma prática de dança especifica se constitui porque seus próprios praticantes arquitetam, ou seja, não é algo que é datado e já estava ali. Sendo assim, fica eminente pensar que a construção do contexto de dança de salão tradicional foi sendo elaborado ao longo do tempo com uma determinada intenção, e como a maioria das elaborações sociais, registradas sob uma perspectiva masculina. Algo que urgentemente necessita de uma reformulação.

Nesse sentido, percebo a riqueza desse espaço de encontro e troca que ocorreu nesse final de semana com essas pessoas que estão vivendo dança de salão no Rio de Janeiro e estão cansadas de não serem escutadas, que almejam produzir conhecimento na dança de salão de outras formas. Professorxs e praticantexs que não toleram mais reproduzir uma prática que exclui, que marginaliza qualquer alteridade presente nesse espaço. Pessoas que estão buscando e construindo espaços democráticos e plurais para dançar a dois, lugares desconstruídos que permitam dar voz as muitas vozes que podem e devem habitar a dança de salão. Uma dança onde corpos femininos, gays, lésbicos, transgêneros, e qualquer outra possibilidade possam se fazer presente. Uma dança horizontalizada sem a dominação do condutor sob o conduzido, uma dança que se estabeleça entre.

Portanto, fico imensamente feliz que o canal tenha sido aberto e agora cabe a nós mantermos ele cada vez mais disponível para que múltiplos corpos possam existir nesse dançar a dois. Seguimos dançando-refletindo-pensando-praticando uma dança de salão que seja contemporânea ao seu tempo.

 

Referência:

DUARTE JUNIOR, João Francisco. O que é Realidade. Editora Brasiliense: São Paulo, 1994.