Um lindo começo, roda gigante, testemunhos e corpos dançantes

O primeiro dia do Congresso de Dança de Salão Contemporânea, Diversidade e Gênero na Dança de Salão foi extremamente lindo. A meu ver a palavra que marca esse dia foi o testemunho, os relatos desses sujeitxs inquietados que decidiram fazer diferente. Tudo isso compartilhado em espaços de muito diálogo, com participantes incríveis e prontos para acolher todas essas iniciativas.

 

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A primeira aula foi o trabalho que venho acompanhando há mais ou menos um ano da professora Carolina Polezi. A proposta da condução compartilhada vem sido aprimorada no trabalho da Carol, e mostra a possibilidade de se pensar as danças a dois abrindo um campo de comunicação onde nenhuma das pessoas da dupla exerça um lugar de hierarquia sobre o outro. Não há apenas um condutor, ambos podem se expressar durante a dança. No começo da aula foram desenvolvidas atividades de ampliação da percepção, o que permitiu que os participantes pudessem desenvolver qualidades corporais que viabilizam o compartilhamento no momento de condução.

A segunda aula foi a minha de Tango Queer, nessa atividade optei em trabalhar com imagens (Samurai/ Gato) para desenvolver qualidades de movimento. A partir desse espaço pude trabalhar estruturas de movimento características do tango, mas tendo a possibilidade desses lugares serem invertidos. No sentido de que não é necessariamente o samurai que irá conduzir por exemplo, inclusive na aula optei por um momento em que o gato assumia a condução. A questão que permeou a minha aula era justamente tentar dar vazão as estruturas da dança tango, mas através de outros caminhos. Buscando sim em alguns momentos uma comunicação baseada pela inversão, pois eu acredito na potência que há ao podermos inverter e ocuparmos espaços que aparentemente não nos pertencem. Ao mesmo tempo, há uma tentativa constante de buscar, nem que sejam instantes, de transversão. Onde não se saiba ao certo quem está propondo, onde possamos ser gatorais, onde as qualidades fluam no dançar, e a escuta seja a base do encontro e do improviso a dois.

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Após as oficinas houve a palestra da professora Laura James, mulher trans e lésbica, que é proprietária da Ata-me escola de dança de salão. Durante a palestra foi extremamente rico ouvir como a história da vida dela foi refletindo na sua trajetória profissional e no amadurecimento de sua metodologia queer de ensino. A Laura traz para o debate percepções totalmente desconhecidas por mim, ao falar de seu lugar de fala como mulher trans atuante e ativista no movimento da dança. Além da palestra, bastante esclarecedoras sobre os termos referentes a gênero e todas as discussões que tem sido feitas no campo LGBTQ+, a Laura também promoveu o Forró Queer. O Forró Queer é um espaço regular extremante acolhedor e que contempla realmente uma diversidade incrível de pessoas. Foi um final de evento lindo, ao poder dançar com toda gentes maravilhosas. Além de ver o povo dançando de maneira fluída e descontraída, sendo aquilo que querem ser.

Contudo antes do Forró Queer rolou o espetáculo Salão do grupo Casa 4 da Bahia. Um trabalho potente, o qual traz para a cena todas as inquietudes dos homens gays nesse espaço. Através de pequenos testemunhos e coreografias, os quatro bailarinos em cena mostram de forma poética as opressões sofridas dentro desse espaço cis-heteronormativo presente na dança de salão tradicional. Contudo há também a criação de um universo de dança a dois outro, onde é permitido ser e existir para aqueles corpos, um espaço onde a dança de salão não reprime, não exclui, onde você pode exercer a sua sexualidade da maneira que lhe convém, onde o corpo pode ser o que desejar. Um espaço que emociona, pois nada mais lindo que ver corpos dançando juntos sendo atravessados pelos seus afetos e pelos seus desejos.

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Fotinho dos meninos do Casa 4

Gente é isso, muito resumido, eu sei. Eu tenho estado bastante emocionada de ver toda essa galera linda que tem participado, não só os profissionais convidados, mas todos aqueles que estão se experimentando e vivendo esse encontro comigo.

Acredito que estou começando bem as comemorações do dia dança….

Um grande salve para a dança de salão que existe a margem, que está se reconfigurando em um espaço de respeito e igualdade.

 

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As fotos são de registros da oficina de Tango Queer e a de Condução Compartilhada ministarda pela Carolina Polezi.

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