A morte da tradição, mas não da dança de salão

Quando dançamos temos a possibilidade de criar outras formas de se relacionar com o mundo, com o outro com o seu próprio corpo. A dança a dois pode ser campo político para perceber a potência que os gestos podem ter na nossa existência. Hoje escrevo diferente porque em parte fui atravessada por Ilana, Guilherme, Carol, Carlos, Kelly, Débora, Camila,… Estava lá disponível para acolher o outro, e perceber o que juntxs poderíamos descobrir durante esses encontros dançantes ao longo do final de semana. Respirações que se sincronizam, toques que deslizam, seguram, escorregam e pressionam. Danças emergentes de outro lugar, criação de pequenas ficções a dois. Quando o dançar a dois é pautado pela escuta do outro e o desejo de se estar juntxs outros mundos começam a ser construídos. Através dessas trocas ao dançar, nesses processos de desconstrução, é que podemos tornar uma prática que aparentemente está fixada em estruturas normativas e padrões de gênero em algo que subverta e reinvente outros modos de existir.

Contudo, para que isso possa acontecer, para que eu possa estar ali aberta ao acaso, ao outro e ao encontro, é necessário horizontalizar. Se colocar em movimento, ir ao chão, desapegar, desprender, desequilibrar, desestabilizar, talvez até cair. Horizontalizar a dança de salão, os espaços onde ela existe, as formas de acessar e compartilhar esses saberes, e os modos de dançar.

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Eu e Ilana – Improvisando e descobrindo formas horizontalizadas de dançar juntas

Pensar em uma dança onde a proposição de movimento seja fluída, e onde se tenha como desejo principal uma tentativa de coexistir dançando. Uma dança que seja plural, acolhedora, sob vias de cuidado consigo e com outro, mas que ao mesmo tempo tenha engajamento, fricções e desafios é algo que tem me mobilizado enquanto criadora-educadora de dança de salão. Não é uma tarefa fácil, é exercício diário de desapego do “eu”, do querer fazer a todo tempo, pois é acreditar na possibilidade de um outro eu, algo que é coletivo. Algo que está no cerne do encontro, no entre os corpos e que vai amadurecendo a cada nova dança.

Nesse sentido, destaco a importância do Baile Contemporâneo de Dança de Salão, organizado pela Companhia Dois Rumos de SP, o qual vem tentando articular e potencializar um espaço onde a prática social do baile possa ser horizontalizada. Sinto uma alegria enorme de chegar em um espaço de dança de salão onde haja homens dançando com homens, mulheres com mulheres, propostas de movimento conhecidas da dança de salão e/ou experimentações com outras danças. Tudo em um único espaço, acontecendo sob o mesmo lugar e de maneira fluída. Há mais de um ano a companhia tem desenvolvido essa atividade em São Paulo, e com isso tem articulado um movimento intenso de pessoas interessadas em repensar as formas de dançar a dois.

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Final de Baile da Dois Rumos, junho de 2018.

Tenho que destacar a quadrilha diferentona que rolou, afinal era Arraial e nada mais justo do que ter aquele bom momento de dança coletiva. Além de poder compartilhar olhares e sorrisos com todxs os presentes, a melhor parte era ver o cuidado da organização em reinventar essa forma de dançar. O discurso muda, atualiza e faz englobar a todxs. Vemos ainda um “medo” quando se falam nessas propostas contemporâneas de fazer-pensar dança de salão, como se elas fossem aniquilar uma tradição. Eai a gente vê a quadrilha rolando, sem papéis de gênero definidos, e o principal, que é todo mundo dançar junto, acontecendo em máxima potência. A mudança, o desconhecido pode até gerar um certo receio no primeiro momento, mas não podemos mais continuar insistindo em “tradições” que oprimem e marginalizam. A dança de salão vai continuar existindo, só não precisa ser da maneira normativa que se encontra.

Só não vale manter o tradicional e vir com o slogan que todos podem dançar e ser feliz, porque eu e várias outras pessoas não nos sentimos bem nesse espaço. E não vamos nos retirar porque queremos dançar dança de salão, e já estamos criando e reinventando espaços, redes, danças, encontros para dar vazão a uma dança de salão feminista, LGBTQ+, queer,….

Voltando a horizontalidade, além da Dois Rumos pude conhecer pessoas interessantes que estão sendo protagonistas desse movimento por lá.  A fantástica Ilana Majerowicz que vem buscando pensar em propostas de ensino da dança de salão contemporânea que sejam processos de experiência para além da ideia do compartilhar algo de maneira vertical. O Guilherme Akido que está começando a articular esse processo em Santo André, a Joana de Barros que está iniciando uma pesquisa acadêmica sobre o tema, e mais um monte de gente iluminada que cruzei nesse final de semana. Pude também reencontrar a minha querida amiga e parceria Carolina Polezi. Nossa distância não está impedindo que os nossos improvisos sejam vivos, além é claro das nossas conversas instigadoras que já são uma marca desse encontro.

Ver outras pessoas trilhando caminhos diferentes dentro dessa área me mobiliza, e faz crer que estamos amadurecendo essa rede de compartilhamentos via dança-conversa-reflexão pelo Brasil. Espero que possamos cada vez mais ampliar os espaços, conversas e danças por aí!

Finalizo esse texto me perguntando o que poderíamos fazer para deixar essa prática de dança de salão expandir para outros espaços para além desses lugares e pessoas que já frequentam o universo da dança. Afinal não são todos que tem o privilégio como eu de poder estar pesquisando esse universo. Como podemos estar sempre trabalhando esse processo de horizontalidade nas nossas danças? Como criar propostas artísticas-educadoras sob esse princípio? Até que ponto estamos dispostos a chegar, será que queremos chegar em algum lugar?

Para quem quiser conferir: Improviso Carolina Polezi e Paola Vasconcelos

Na terra dos “grandes mestres” há resitência e reinvenção

Ocorreu nesse final de semana nos dias 26 e 27 de junho de 2018, a primeira oficina de dança de salão contemporânea no Rio de Janeiro. O espaço Mova promoveu a vinda do professor Samuel Samways (BH) para realizar uma oficina durante a tarde, e no domingo aconteceu o primeiro Baile Experimental no espaço.

Durante essa minha experiência de viver em terras cariocas, território onde a maioria dos “grandes mestres” surgiu e consolidou o seu trabalho. Estou aqui falando especificamente de trajetórias na dança de salão que conservam elementos pautados em uma tradição centrada na figura do homem, sendo ele o protagonista da dança, refletindo uma cultura machista e heteronormativa. Formato esse de pensar a dança de salão o qual muita vezes direciona o papel da mulher apenas como algo que atribui  beleza , não cabendo a ela participar das decisões dos passos e podendo apenas se expressar criativamente quando isso não interferir na movimentação masculina. Estou apenas resumindo essa condutas da dança de salão tradicional, mas para mais informações recomendo a leitura de outros post do blog e do artigo publicado por Carolina Polezi e Paola Vasconcelos em 2017

Quando me utilizo das aspas ao referenciar os grandes mestres, é justamente por ficar incomodada com a centralidade masculina presente nos discursos e práticas desses profissionais. Os quais em sua maioria traçaram suas trajetórias fortalecendo uma prática que além de ser opressiva, foi construída a partir da experiência de muitas mulheres as quais são pouco reconhecidas e legitimadas nesse espaço. Essas referências na dança de salão são responsáveis por formar uma grande quantidade de profissionais dessa área. Contudo, seus fazeres se apresentam intocáveis e inquestionáveis, ou seja, não há espaço de diálogo para se pensar em reformulações de ideias e práticas. O que de fato não me surpreende, dado o eminente espaço privilegiado que ocupam.

Nesse sentido, o que havia percebido do pouco tempo em que habito esse território, é o quanto o espaço do Rio de Janeiro se mantem fechado e conservador as novas propostas da dança de salão. A sensação é que a dança de salão em si é uma realidade instaurada, uma entidade maior, a qual ninguém poderá questionar e problematizar os seus fazeres.

Li a algum tempo um texto que questiona justamente o que seria a realidade, o quanto estamos muitas vezes conectados a uma ideia de que seria algo pré-estabelecido e dado em nossas vidas. O autor Duarte Junior (1994) traz que poderíamos pensar na realidade como aquilo que é dado como inerente ao existir, ou seja, o real é o terreno firme que sustentaria o nosso cotidiano. No primeiro momento já para desconstruir essa proposta de apenas uma realidade é importante destacar a pluralidade dessas realidades, visto que o mundo se revela de um jeito ou de outro conforme a nossa intenção. Outro elemento importante de reflexão é que a realidade não é instaurada e pronta, muito pelo contrário, nós humanos seriamos os edificadores dessa realidade, pois estaríamos construindo o mundo. Contudo como traz João Francisco Duarte Junior (1994) o paradoxo está nesse conflito de não nos sentirmos apropriados desse lugar de construtores, e sim submetidos a uma realidade conduzida por um sistema de forças naturais e sociais. Dessa forma, é relevante pensarmos que a realidade de uma prática de dança especifica se constitui porque seus próprios praticantes arquitetam, ou seja, não é algo que é datado e já estava ali. Sendo assim, fica eminente pensar que a construção do contexto de dança de salão tradicional foi sendo elaborado ao longo do tempo com uma determinada intenção, e como a maioria das elaborações sociais, registradas sob uma perspectiva masculina. Algo que urgentemente necessita de uma reformulação.

Nesse sentido, percebo a riqueza desse espaço de encontro e troca que ocorreu nesse final de semana com essas pessoas que estão vivendo dança de salão no Rio de Janeiro e estão cansadas de não serem escutadas, que almejam produzir conhecimento na dança de salão de outras formas. Professorxs e praticantexs que não toleram mais reproduzir uma prática que exclui, que marginaliza qualquer alteridade presente nesse espaço. Pessoas que estão buscando e construindo espaços democráticos e plurais para dançar a dois, lugares desconstruídos que permitam dar voz as muitas vozes que podem e devem habitar a dança de salão. Uma dança onde corpos femininos, gays, lésbicos, transgêneros, e qualquer outra possibilidade possam se fazer presente. Uma dança horizontalizada sem a dominação do condutor sob o conduzido, uma dança que se estabeleça entre.

Portanto, fico imensamente feliz que o canal tenha sido aberto e agora cabe a nós mantermos ele cada vez mais disponível para que múltiplos corpos possam existir nesse dançar a dois. Seguimos dançando-refletindo-pensando-praticando uma dança de salão que seja contemporânea ao seu tempo.

 

Referência:

DUARTE JUNIOR, João Francisco. O que é Realidade. Editora Brasiliense: São Paulo, 1994.

Por mais dias da dança assim….

O dia 29 de abril é bastante significativo pois é dia internacional da dança. Sempre mencionei que essa data deve ter um caráter festivo, mas especialmente é necessário também atentar para questões políticas na e para dança. Sendo assim, encerrar o 1º Congresso de Dança de Salão Contemporânea, nessa data, para mim é bastante significativo. Acima de tudo esse espaço foi potência, elaboração de uma rede de disseminadores de abordagens contemporâneas na dança de salão. Pessoas que estão dentro das diversas áreas que englobam a dança de salão como o espaço de sala de aula, artístico ou social e que vem ao longo de suas pesquisas problematizando suas abordagens. Buscando realizar suas propostas à margem do que está pré-estabelecido, tendo a preocupação de desconstruir comportamentos machistas, abusivos, cis-heteronormativos. Tendo como demanda a construção de espaços de acolhimento, escuta, sensibilidade e mais horizontalizados.

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O domingo então começou com a oficina da Companhia Dois Rumos (SP), no qual há uma busca de preparar um corpo capaz de se relacionar com outro de uma forma menos impositiva. Nesse sentido esse coletivo propõem a construção desse pré-corpo através de dinâmicas de sensibilização, de consciência da estrutura óssea, da mobilidade das articulações, entre outras coisas, as quais passam por um processo de percepção do próprio corpo. Embora, o que eu considere mais significativo seja o fato de que através dessa proposta podemos experimentar outras formas de tocar o outro corpo, com tônus, mas sem ser impositivo. Isso passa a ser fundamental para o dançar a dois.

Na sequência rolou a oficina da Débora Pazetto e o Samuel Samways que apresentaram a proposta de condução mútua. Sendo assim, nesse caso não haveria alguém responsável por dar a indicação inicial para a improvisação, nenhum dos componentes da dupla possui esse lugar de indicar o estímulo inicial. A busca se dá por uma perda conjunta que gera o movimento, é no entre os corpos que os agenciamentos vão ocorrendo. A proposta dessa oficina foi justamente trabalhar com essa construção de um corpo expandido capaz de estar sempre em relação ao outro e ao espaço. E ainda buscar princípios de movimentos de deslocamentos de perna a partir desse contato com o corpo expandido.

Durante esse dia, houve a palestra do BeHoppers coletivo de pessoas que movimentam a cena Lindy Hop em Belo Horizonte. A Camila Magalhães e Fabrício Martins apresentaram alguns princípios que apontam porque essa dança a dois sempre possui uma fluidez maior no aspecto da condução e na constituição do par. Para ilustrar os mesmos trouxerem exemplos de vídeos antigos onde homens dançam com homens e mulheres com outras mulheres, sem a necessidade de estereotipar os movimentos. Além disso, o grupo organizou uma campanha intitulada 30 atitudes não machistas na dança de salão, a qual reverberou pelo mundo todo.

Para finalizar as atividades, além do baile que a meu ver se tornou espaço de concretização de todos os debates e oficinas que foram realizados durante o evento, houve uma mesa redonda com as professoras do evento. A temática da mesa tinha como foco os novos rumos da dança de salão. Houve discussões à respeito da necessidade de elaboração de um termo guarda-chuva que comporte todas essas abordagens que possuem ideais comuns, mas que em sua prática e processo de construção acabam se diferindo. Foi trazido pelo público a ausência de representatividade de alguma mulher negra nesse espaço de fala, sendo que todos nós concordamos a importância de possibilitar que esse espaço seja compartilhado e realmente plural. Sendo assim, também foi levantado que todos ali presentes são responsáveis por disseminarem a importância do que estamos discutindo nesse evento, levando para os seus grupos e cidades um pouco do que rolou no evento.

Gostaria de finalizar esses relatos rápidos, salientando a importância desse encontro ter acontecido, no formato o qual ele foi idealizado. O evento contemplou além de uma grade de aulas ministrada majoritariamente por mulheres professoras independentes, algo que não é uma prática comum nesse espaço. Houve ainda uma preocupação de dar conta das questões de representatividade do público LGBTQI+  nos espetáculos apresentados, nas propostas queer de ensinar dança de salão. E por último houve ainda os espaços de discussão os quais trouxerem aspectos teóricos para fundamentar esse movimento e as práticas experimentadas.

Só digo que é fundamental o momento em que vivemos para passarmos a questionar que dança estamos fazendo e dançando. Obrigada a todxs que acompanharam as oficinas, obrigada as pessoas lindas que dançaram comigo nos bailes e tronaram a minha experiência em BH enriquecedora. Somos rede de afetos e potências dançantes. Não há queda, não a chão, não há o outro que possa dizer o que podemos fazer. Somos corpos duplos, somo múltiplos, mas acima de tudo somos fortes e não temos medo de criticar e questionar o que aparentemente está dado.

Obs: amores peço desculpas porque as fotos ficaram um pouco prejudicadas desse dia, mas assim que conseguir já adiciono aqui. 😉

Movendo estruturas através do dançar

Acabou de chegar do baile de dança de salão contemporânea, espaço lindo onde podemos experimentar apenas ser e dançar sem medo de se expressar. Espaço criativo onde as danças passam a ser resistências e onde conseguimos visualizar a concretude de uma dança de salão que seja plural e diversa. Uma dança de salão sem hierárquicas, que escapa a todo tempo para uma forma de existir fluída. Acho que acima de tudo esse encontro tem sido de afetos e força, estamos nos conhecendo, criando os vínculos e nos fortalecendo enquanto grupo de pessoas que são responsáveis por uma mudança significativa que está por vir na dança de salão. Somos todos disseminadores de ideias, pensamentos, e especialmente corpos dançantes dispostos a experimentação. Houve um espaço de compartilhamento de referencial entre os participantes no saguão do teatro, isso mostra o quanto há pessoas interessadas em aprofundar suas pesquisas e trabalhos por aí.

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Houve palestra da incrível Débora Pazetto, a qual foi uma aula sobre feminismo, ideologia de gênero, história da dança de salão. Especialmente levantou um pouco bastante relevante no sentido de que essa mudança na dana de salão ela é urgente e necessária, afinal ainda estamos reproduzindo aspectos de séculos passados. Durante a palestra foi interessante perceber como cada vez mais há jovens pesquisadores querendo estudar essa área academicamente. Na oficina da Laura James e da Marina Coura de Dança de Salão Queer, é possível perceber que a mudança pode ser sutil. Ambas trouxerem exemplos de como o trabalho da Ata-me vem sendo abordado nas aulas. Uma pequena mudança no discurso do professorxs, na maneira como nos relacionamos com os corpos dos alunos, nas músicas que escolhemos para utilizar em sala de aula, tudo isso possibilita já um outro espaço de praticar e ensinar essa dança.

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Houve ainda a oficina de compartilhamento do processo de criação dos meninos do Casa 4, onde podemos experimentar no corpo como o espetáculo foi surgindo. O coletivo é composto por Alisson George, Guilherme Fraga, Jonatas Raine e Ruan Wills. Eu estou fascinada por esses meninos, que além de dançarem muito são extremante generosos. Há uma entrega do grupo ao dividir suas inquietudes, suas histórias e suas danças, ao mesmo tempo, eles conseguiram criar um espaço de dar vazão as demandas das pessoas que estavam ali presente. Obrigada pela gentileza, e espero ver muitos trabalhos cênicos desse coletivo.

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Para finalizar vou falar do espetáculo Monstra do coletivo A Margem. A proposta dos artistas é realizar uma autocrítica do universo da dança de salão. Houve sátiras e ironias constantemente, durante o espetáculo. Contudo tudo estava coeso e claro durante a proposta. Confesso que o final é inusitado, dentro dos parâmetros de espetáculos que já vi anteriormente. Todos os clichês estaõ ali, sendo suporte para a potente movimentação e cena que vão se criando.

 

Gente não dou conta mais de escrever é muito amor!!! Evento lindo, mas o sono está pegando. Desculpa se rolar algum erro aí de portuga 😉

Um lindo começo, roda gigante, testemunhos e corpos dançantes

O primeiro dia do Congresso de Dança de Salão Contemporânea, Diversidade e Gênero na Dança de Salão foi extremamente lindo. A meu ver a palavra que marca esse dia foi o testemunho, os relatos desses sujeitxs inquietados que decidiram fazer diferente. Tudo isso compartilhado em espaços de muito diálogo, com participantes incríveis e prontos para acolher todas essas iniciativas.

 

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A primeira aula foi o trabalho que venho acompanhando há mais ou menos um ano da professora Carolina Polezi. A proposta da condução compartilhada vem sido aprimorada no trabalho da Carol, e mostra a possibilidade de se pensar as danças a dois abrindo um campo de comunicação onde nenhuma das pessoas da dupla exerça um lugar de hierarquia sobre o outro. Não há apenas um condutor, ambos podem se expressar durante a dança. No começo da aula foram desenvolvidas atividades de ampliação da percepção, o que permitiu que os participantes pudessem desenvolver qualidades corporais que viabilizam o compartilhamento no momento de condução.

A segunda aula foi a minha de Tango Queer, nessa atividade optei em trabalhar com imagens (Samurai/ Gato) para desenvolver qualidades de movimento. A partir desse espaço pude trabalhar estruturas de movimento características do tango, mas tendo a possibilidade desses lugares serem invertidos. No sentido de que não é necessariamente o samurai que irá conduzir por exemplo, inclusive na aula optei por um momento em que o gato assumia a condução. A questão que permeou a minha aula era justamente tentar dar vazão as estruturas da dança tango, mas através de outros caminhos. Buscando sim em alguns momentos uma comunicação baseada pela inversão, pois eu acredito na potência que há ao podermos inverter e ocuparmos espaços que aparentemente não nos pertencem. Ao mesmo tempo, há uma tentativa constante de buscar, nem que sejam instantes, de transversão. Onde não se saiba ao certo quem está propondo, onde possamos ser gatorais, onde as qualidades fluam no dançar, e a escuta seja a base do encontro e do improviso a dois.

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Após as oficinas houve a palestra da professora Laura James, mulher trans e lésbica, que é proprietária da Ata-me escola de dança de salão. Durante a palestra foi extremamente rico ouvir como a história da vida dela foi refletindo na sua trajetória profissional e no amadurecimento de sua metodologia queer de ensino. A Laura traz para o debate percepções totalmente desconhecidas por mim, ao falar de seu lugar de fala como mulher trans atuante e ativista no movimento da dança. Além da palestra, bastante esclarecedoras sobre os termos referentes a gênero e todas as discussões que tem sido feitas no campo LGBTQ+, a Laura também promoveu o Forró Queer. O Forró Queer é um espaço regular extremante acolhedor e que contempla realmente uma diversidade incrível de pessoas. Foi um final de evento lindo, ao poder dançar com toda gentes maravilhosas. Além de ver o povo dançando de maneira fluída e descontraída, sendo aquilo que querem ser.

Contudo antes do Forró Queer rolou o espetáculo Salão do grupo Casa 4 da Bahia. Um trabalho potente, o qual traz para a cena todas as inquietudes dos homens gays nesse espaço. Através de pequenos testemunhos e coreografias, os quatro bailarinos em cena mostram de forma poética as opressões sofridas dentro desse espaço cis-heteronormativo presente na dança de salão tradicional. Contudo há também a criação de um universo de dança a dois outro, onde é permitido ser e existir para aqueles corpos, um espaço onde a dança de salão não reprime, não exclui, onde você pode exercer a sua sexualidade da maneira que lhe convém, onde o corpo pode ser o que desejar. Um espaço que emociona, pois nada mais lindo que ver corpos dançando juntos sendo atravessados pelos seus afetos e pelos seus desejos.

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Fotinho dos meninos do Casa 4

Gente é isso, muito resumido, eu sei. Eu tenho estado bastante emocionada de ver toda essa galera linda que tem participado, não só os profissionais convidados, mas todos aqueles que estão se experimentando e vivendo esse encontro comigo.

Acredito que estou começando bem as comemorações do dia dança….

Um grande salve para a dança de salão que existe a margem, que está se reconfigurando em um espaço de respeito e igualdade.

 

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As fotos são de registros da oficina de Tango Queer e a de Condução Compartilhada ministarda pela Carolina Polezi.

Construindo Outros Caminhos na Dança de Salão

Hoje venho com grande felicidade divulgar o evento que iniciará amanhã em Belo Horizonte o Primeiro Congresso de Dança de Salão Contemporânea, Gênero e Diversidade na Dança de Salão. O evento pretende reunir diversos professorxs, artistas e ativistas que tem repensando suas práticas nessa dança, e estão em constante processo de pesquisa sobre outras abordagens para ensinar-criar-praticar dança de salão.

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Todas as prospostas, dentro de suas singularidades, estão continuamente desconstruindo os padrões heteronormativos que estão presentes na dança de salão tradicional. Tendo como foco a criação de abordagens contemporâneas que comportem uma dança mais plural e diversificada. Uma prática agregadora que não imponha hierarquias.

O evento foi idealizado por Laura James e Samuel Samways, tem apoio do CEFART. A programação prevê oficinas, palestras e apresentação de espetáculos. Além dos dois bailes de dança de salão contemporânea e o Forró Queer.

O evento ainda conta com a participação das professoras Carolina Polezi (SP), Marina Coura (MG) e Débora Pazeto (MG). Além dos grupos Casa 4 (BA), Dois Rumos (SP), e BeHoppers (MG).

Eu estarei presente ministrando uma oficina de Tango Queer no dia 27.04.18 às 15h 30min às 17h no CEFART. A proposta é trazer um vivência da prática do tango a partir de uma abordagem queer, a qual venho pesquisando desde 2015.  Contudo a temática da condução sempre foi uma questão, e sua problematização foi tema do meu trabalho de conclusão em dança em 2012. Atualmente, essa temática tem sido investigada por mim no doutorado em Artes Cênicas na UNIRIO sob orientação do Prof. Dr. Charles Feitosa. Pretendo então instaurar nesse post a minha tentativa de trazer relatos das experiências que irei vivenciar nos próximos dias, um testemunho compartilhado de carne e pensamentos.  Espero poder registrar esse momento, afinal ele é de extrema importância para a dança de salão e para mim enquanto artista/professora.

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Feliz com a possibilidade de estar encontrando pares para dialogar, e juntos estarmos rescrevendo outras historiografias para a dança de salão.  Na foto acima eu e a Natália Dorneles estavamos dançando na oficina que ministrei na Semana de Diversidade de Genêro da FABICO na UFRGS em Porto Alegre. O click foi da Yamini Benites. Gosto muito dessa imagem pois representa como tenho encarado o dançar a dois na minha vida, com afeto, resistência, pluralidade, reflexão e muita dança boa!

Partiu….

Um evento onde o coração pulsa

A Batalha de Dublagem, é um evento realizado em parceria da Lolita Rouge (personagem criado por mim) com o bar Von Teese-High Tea & Cocktail Bar em Porto Alegre. O objetivo principal é criar um ambiente descontraído, onde o público possa se divertir dublando suas canções favoritas. A cada edição a Lolita Rouge, prepara alguma dublagem especial para animar a noite.

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Eu, Lolita, me sinto energizada a cada edição desse evento, pois sempre há grandes surpresas. A energia que se cria é tão intensa, que todos do bar ficam conectados. Aos poucos as mesas passam a ser integradas, e o bar inteiro começa a curtir, torcer, participar e superar a timidez. Claro, que uns bons drinks ajudam a liberar as performances que estão guardadas dentro de cada um. É lindo ver quando as pessoas conseguem se superar, e passam a se divertir pelo fato de estarem ali interpretando suas músicas favoritas. Vale apresentação individual, em dupla, trio, ou grupo só não pode ficar parado.

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A Batalha de Dublagem passou a ser um grande encontro, onde qualquer pessoa é bem-vinda. Todos brincam nesse lugar, onde não há certo ou errado, há apenas um lugar de afeto.  Você pode ser um participante experiente ou ter ido por acaso, aqui todos têm vez e podem se divertir!

Ficou curioso?

Deixo um registro da nossa última edição 🙂

 

 

Estou ansiosa para a nossa sexta edição!

Contando os dias para me divertir ao lado de vocês

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Batalha de Dublagem – apresentação Lolita Rouge

Quando: 28/07/17 às 20h

Onde: Von Teese -High Tea Coktail Bar,  Rua Bento Figueredo 32